Tribuna do Leitor

UM ATOR ASFIXIADO PELA CIDADE NATAL


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O evento teatral "Horror na Quaresma", organizado pelo ator Roberto Malini, na semana do Carnaval, agitou a cidade e divulgou o Museu da Imagem e do Som de Bauru. Roberto fez o próprio enterro, exibiu mais uma vez o seu curta "Asfixia" (produzido em Bauru) e ainda ofereceu uma oficina teatral gratuita. Ele utilizou uma linguagem psicodélica, fez um teatro de protesto aberto, mostrou pluralidade cultural ao exibir as mazelas do preconceito social e artístico, em frente da Catedral, bem no momento da Ave-Maria, às seis da tarde, e ainda fez muita gente refletir sobre a falta de uma política cultural para o artista local na cidade de Bauru. A Secretaria Municipal de Cultura apoiou o evento sem qualquer preconceito e com muito entusiasmo; até alguns funcionários seus participaram das performances de horror, o que mostrou um envolvimento espontâneo e fantástico.

Quem acompanhou o cortejo foi ao delírio coletivo, mas eu não vi por lá outros artistas da cidade e muito menos alunos das artes cênicas e dos cursos livres de teatro, que nem por cu-riosidade ou pesquisa teatral por lá apareceram. Será que faltou divulgação? Ou era ressaca de Carnaval? Acho que não. Faltou talvez interesse espontâneo ou será que santo de casa não faz milagre? Milagre não, mas faz teatro de altíssima qualidade e dramaticidade, algo talvez maior do que Bauru poderia ver. O evento foi aberto a todas as classes sociais da cidade. Muita gente importante e séria do cenário político de Bauru parabenizou Roberto, mas elogio não faz prestígio e muito menos sustenta uma família.

Elogio é bom para o ego. Roberto tem coragem de ser artista e jamais almejou qualquer outro caminho contrário à arte ou que des-viasse o seu foco teatral. Ele nunca desistiu da profissão de ator e sempre amou e divulgou Bauru. Mas infelizmente a cidade não oferece condições de sobrevivência para um artista de extrema ousadia e perseverança. Por isso o mestre bauruense do horror vai embora para a capital. Se ficasse em Bauru, enlouqueceria com tanta hipocrisia. O secretário de Cultura, Elson Reis, prestigiou o evento pessoalmente e vi que ele está com muita vontade de fazer algo concreto pelo artista local. Que tal começar por Roberto? O que a Secretaria Municipal de Cultura poderia fazer para não deixá-lo partir? O que é possível fazer pelos artistas que ainda estão em Bauru? É o momento de uma discussão de política cultural séria. Em janeiro, muito se falou do teatro quebrado sem condições para um espetáculo, mas pra quem ainda não sabe aquele teatro foi construído às pressas para receber artistas televisivos e não para o artista local, porque artista local não traz retorno financeiro para a cidade. Tudo já começou errado.

O teatro de Roberto está além das quatro paredes e Bauru tem muita gente fazendo teatro sem teatro e, além do mais, teatro quebrado se conserta e roupa suja se lava em casa. Eu acredito muito no novo secretário para um diálogo aberto de política cultural. Só é preciso vontade política, discussão séria e artistas que são heróis, porque teatro de verdade só se faz com dignidade profissional. Parabéns, mestre do horror. Você me assusta, mas me faz sair da minha inércia cultural.


Manoel Fernandes

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