Sempre morei em Piratininga. Quando criança, por volta de 1975 a 1978, eu e meu amigo "Vozão" (Dinaldo da Silva, pintor profissional), pescávamos, ou melhor, brincávamos de pescar "de peneira". Isso acontecia no córrego que passa na parte baixa da cidade. Começávamos bem acima, perto do clube PTC, passávamos por um túnel debaixo da linha férrea e seguíamos até o matadouro, hoje o Clube Águas Quentes.
A pescaria consistia em um fazer muita agitação com os pés (batendo nas "locas") nas margens do rio e o outro "trancar" a passagem dos peixes com a peneira. Era uma expectativa antes de levantar a peneira para se saber o que vinha naquela "batida".
Pegávamos varias espécies e depois soltávamos. Eram, entre outros que não me lembro, lambaris, pedrinhas, cascudos, peixes-cachorro, papa-terra, mandis, traíras, bagres e pirambóia (que para pegá-la era preciso passar terra nas mãos para dar aderência). Às vezes vinha uma surpresa, uma cobra. E era um grande susto. Imediatamente, a peneira ia para longe.
Naquela época, aquele local era rico e despoluído. Podíamos beber água dali e nadar. Às vezes, fazíamos uma barragem no rio (tipo castor) para ficar mais fundo. Suas margens tinham árvores frutíferas como goiabeira, jamelão, jambo, maracujá e manga.
Quando chovia, com as águas sujas, pescávamos com varinha de bambu e minhoca retirada de um brejo próximo. Pegávamos mandis e bagres de tamanhos consideráveis. Também na desembocadura deste córrego, no rio Batalha, uns quinhentos metros antes da estação do DAE, a quantidade e qualidade dos peixes eram bem maiores, pois o rio era mais fundo, pois recebia pequenos afluentes.
Aliás, o Batalha era outro local muito frequentado por mim naqueles tempos. Na ponte da estrada velha Bauru-Piratininga, era uma espécie de "clube de campo dos pobres", pois nos finais de semana aquilo "fervia" de gente, mas tinha lugar para todos, já que o rio tinha espaço, largura (9 a 8m) e profundidade (1 a 3m). Podia-se até pular da ponte da linha férrea. Bons tempos aqueles!
Ricardo Fernandes Grassi, é ambientalista e contador de histórias.