Cunha - O suspeito de matar duas irmãs adolescentes na zona rural de Cunha (231 km de São Paulo) entrou na lista dos mais procurados no site da Polícia Civil de São Paulo, ao lado de outros 24 foragidos - em uma relação que inclui o médico Roger Abdelmassih e Mizael Bispo de Souza, acusado pela morte da ex-namorada Mércia Nakashima.
Ananias dos Santos, 27 anos, teve a prisão decretada pela Justiça na terça-feira, mas já era considerado foragido por roubo. Ele fugiu da penitenciária de Tremembé (147 km de São Paulo) depois de receber o benefício da saída temporária de Páscoa, em 2009. A polícia também aponta seu envolvimento em formação de quadrilha, porte ilegal de armas e constrangimento ilegal.
O pedreiro José Benedito de Oliveira, pai das garotas Josely Laurentino de Oliveira, 16 anos, e Juliana Vânia de Oliveira, 15 anos, encontradas mortas na última segunda-feira, em Cunha, no Vale do Paraíba (SP), contou à polícia, que o principal suspeito do crime, Ananias dos Santos, esteve em sua casa um dia após o desaparecimento das irmãs, solicitando que ele guardasse uma arma.
A atitude de Santos pode ter sido uma tentativa de incriminar o pedreiro, caso o revólver fosse encontrado posteriormente no imóvel. Segundo Oliveira, Santos demonstrava nervosismo e pediu para esconder a arma num monte de lenha. "Disse a ele que fosse embora", afirmou o pai das adolescentes.
A auxiliar de enfermagem que namorava o suspeito do duplo homicídio disse em entrevista a uma emissora de televisão que se arrepende de não ter avisado a polícia logo que recebeu um telefonema de Santos, no último dia 24 - um dia após o sumiço das irmãs -, afirmando saber onde estavam os corpos. "Eu me arrependo amargamente", afirmou. Uma irmã de Santos também foi entrevistada e contou que a "situação está muito difícil" e que a família não esperava "uma coisa dessas".
O irmão, segundo ela, não comentou nada sobre os assassinatos. "Não acredito que ele tenha feito isso. Se fez, tem de ser castigado."
Santos cumpria pena no Presídio Edgar Magalhães Noronha, em Tremembé, também no Vale do Paraíba (SP), mas fugiu depois de uma saída temporária de Páscoa, há dois anos. Desde então, passou a morar com os pais, no bairro do Jacui, o mesmo das adolescentes. A polícia continua investigando o duplo homicídio.
Protesto inédito em Cunha
Cunha - A manifestação nas ruas de Cunha na tarde de ontem foi um fato inédito na cidade. Estudantes vestidos com camisetas brancas e fotos das irmãs, além de moradores de todas as idades, caminharam do Alto do Cruzeiro até a praça da Igreja Matriz. "Tinha mais gente que na festa do Divino", disse um morador, se referindo à principal comemoração religiosa de Cunha, que ocorre tradicionalmente em maio. Dulce Maia, que vive no município há 18 anos, cobrou mais policiamento. "A população tem de agir, não pode ficar calada", afirmou.
Além de autoridades locais, também apoiou a manifestação a deputada Keiko Ota, mãe do garoto Ives Ota, assassinado em São Paulo, em 1997, então com 8 anos. Ela defende a proposta de aumentar a pena máxima de 30 para 100 anos de prisão no Brasil.
Um abaixo-assinado começou a circular entre a população pedindo aumento do efetivo pois, atualmente, Cunha, um dos maiores municípios de São Paulo em extensão territorial, conta com apenas 19 policiais militares.
A prefeitura de Cunha e a Cunhatur, entidade que reúne os principais estabelecimentos de turismo da cidade, divulgaram nota lamentando "o crime bárbaro que chocou a comunidade de Cunha e de todo o Brasil nos últimos dias". Eles afirmam que o duplo homicídio "não reflete a realidade da cidade", uma estância climática voltada para o turismo ecológico, tendo como sua principal arte a cerâmica artística.