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Entre o discurso e a prática, onde fica a saúde pública de Bauru?

Clodoaldo Armando Gazzetta
| Tempo de leitura: 3 min

Sempre sou abordado por pessoas que querem a minha opinião sobre a atuação da Prefeitura em alguns temas. Não tenho como costume comentar publicamente minhas opiniões, pois disputei a eleição com um projeto diferente do atual e acho que o julgamento já foi feito nas urnas. Estou me manifestando agora porque, infelizmente, passados mais de dois anos da administração municipal, percebemos a inexistência de um plano, permitindo pensar que são apenas ideias que não se combinam para formar um caminho na qual a cidade poderia trilhar. Não se trata aqui de uma mera e simples crítica política, pois torcemos pelo sucesso das ações municipais, uma vez que sua consequência, positiva ou negativa, interfere na vida de cada um de nós. De todas as áreas que apresentam dificuldades, acredito ser a saúde aquela que mais afeta a população. Além da falta de uma visão mais estratégica sobre o tema e a dificuldade para formação de um pro-jeto consistente, o que mais chama atenção na atual prefeitura é a insistência em ações já fracassadas no passado e a transformação dos graves problemas que a saúde pública sempre atravessou em enormes fissuras institucionais, que agora vão necessitar de um gigantesco esforço para serem superadas.

A proposta de privatização dos serviços do Pronto-Socorro da Bela Vista, apresentada recentemente pelo atual governo, é o golpe de misericórdia na já convalescida situação do sistema. Por mais disfarces ou justificativas, a proposta é o retrato fiel da privatização da saúde pública em Bauru. Isso não ajudará a resolver o problema, é uma ação paliativa que apenas empurra a responsabilidade e cria mais um ponto de conflito com o funcionalismo pú-blico municipal, uma vez que diferencia salários para uma mesma atividade. Sou totalmente contra a este modelo de privatização, mas favorável que médicos, hospitais e clínicas da cidade colaborem com o município através de outras bases de parceria. Durante a eleição de 2008, o PV apresentou o seu modelo, que tinha como fundamento a constituição de uma Fundação Pública para ajudar na funcionalidade do sistema de saúde da cidade. Esta fundação, pública, gerenciada pela própria prefeitura, através da Secretaria Municipal de Saúde, deveria ter entre as suas atribuições a possibilidade de estabelecer convênios com clínicas, hospitais e laboratórios, equipamentos que não dispomos no atual sistema público municipal, com vistas a ajudar no processo de resolutividade do atendimento de especialidades, contribuindo assim, para o desafogamento do sistema e a diminuição da espera por este tipo de atendimento.

Além da fundação, a construção de dois centros de saúde da mulher, do ambulatório de especialidades do município, da ampliação das equipes do programa de saúde da família, e a implantação das UPAS, proposta ainda do go-verno Tuga Angerami, formando uma grande rede onde a saúde preventiva tivesse maior destaque para evitar a sobrecarga no sistema de urgência e emergência, ajudaria a melhorar sensivelmente o atendimento da população. Portanto, a proposta do Partido Verde em nada, absolutamente nada, se assemelha a esta iniciativa atual da prefeitura de privatizar a saúde pública em Bauru. Lembro-me que na campanha eleitoral a pecha de privatizador foi imputada ao candidato do PSDB, sendo excluída terminantemente do compromisso do atual governo municipal. Infelizmente, entre o discurso e a prática existe o abismo do poder! Para finalizar, apenas uma reflexão sobre o sistema de saúde em Bauru. Se a iniciativa privada arrecada através dos planos de saúde quase a mesma soma que a Prefeitura investe em saúde pública no município, ou seja, 90 milhões de reais anuais, para cuidar de aproximadamente metade da população, porque a outra metade mais carente está tão desassistida e tem um serviço público de péssima qualidade? Chegou a hora de sabermos qual será a vacina e não mais o remédio paliativo.


O autor, Clodoaldo Armando Gazzetta, é biólogo, ambientalista e ex-secretário do Meio Ambiente de Bauru

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