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Jovens trocam o álcool pelo crack

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Se antigamente os jovens usavam a bebida alcoólica como pretexto para criar coragem, agora o instrumento é outro. O álcool foi substituído por outras drogas, especialmente pelo crack.

Foi uma mudança lenta, porém gradativa, e que refletiu de maneira inequívoca no perfil dos dependentes químicos atendidos pelo Centro de Apoio Psicossocial/Álcool e Drogas (Caps/AD) de Bauru.

"Entre os jovens, não temos mais alcoolistas. A grande maioria dos que chegam até aqui é usuária de crack", afirma a psicóloga Valéria Moron Perri Gimenes, coordenadora do Caps/AD. Álcool e crack são drogas que não combinam muito bem. Portanto, quem usa crack, dificilmente consome bebida alcoólica. E a recíproca também é verdadeira. "Quem usa álcool, não usa crack", diz a coordenadora.

Segundo Valéria, essa inversão começou a ficar evidente há cerca de um ano e meio. No caso específico dos jovens, ela conta que há uma dificuldade considerável para o sucesso do tratamento porque a maior parte chega ao Caps/AD levada pelos pais ou por ordem judicial, ou seja, obrigada. "Quando não há o desejo do paciente em se curar, a recuperação é mais difícil", afirma.

O Caps/AD é uma unidade ambulatorial, que possui uma equipe multiprofissional composta por um médico clínico geral, dois psiquiatras, quatro psicólogos, uma enfermeira, duas auxiliares de enfermagem, uma assistente social, um terapeuta ocupacional e duas fonoaudiólogas. Para a coordenadora, embora não haja fila aguardando atendimento, a procura aumentou e a equipe ficou pequena para atender a demanda. Segundo ela, existe a expectativa para a contratação de mais profissionais até o fim deste ano.

Não há internação no Caps/AD. Depois do paciente ser atendido, ele volta para casa. Se a internação for necessária, o dependente é encaminhado para entidades parceiras como o Hospital Manoel de Abreu (para desintoxicação), Hospital Psiquiátrico Tereza Perlatti (para casos mais graves) e as comunidades terapêuticas Bom Pastor e Esquadrão da Vida, que disponibilizam 25 vagas cada uma.

De acordo com Valéria, o Caps/AD recebe, por mês, cerca de 800 dependentes químicos em busca de ajuda. Desse total, aproximadamente, 10% são alcoolistas puros. Outros 50% fazem uso do álcool junto com outra droga. O restante é usuário de crack.

Na opinião dela, o aumento no número de dependentes químicos é uma consequência direta da desestruturação familiar. E essa disfunção atrapalha, inclusive, na recuperação do paciente.

Segundo a psicóloga, de nada adianta recuperar a parte física se o dependente não reabilitar sua vida emocional e espiritual. "A recuperação tem de ser completa", avisa. De acordo com ela, essa é a grande dificuldade. É a mesma coisa que tratar um morador de rua e ele continuar sem um lar e sem uma família. A probabilidade de ele voltar ao vício é muito grande.

Para a psicóloga Elizabete Kurosawa, especialista em dependência química, o sucesso do tratamento depende da motivação do paciente. "É isso que vai fazer com que o dependente queira se tratar", afirma. "Ele precisa de um novo projeto de vida para ter forças", aponta.

O álcool, segundo ela, é bifásico. Ele traz uma euforia muito grande para depois provocar a disforia, ou seja, um sentimento depressivo. E é justamente essa fase que preocupa. "A pessoa acha que tudo é difícil. Ela perde o interesse, o prazer, a esperança, sente-se incapaz e triste.

A função da psicologia, segundo Elizabete, é reverter isso. É fazer com que a pessoa queira se tratar, nem que para isso seja preciso mudar hábitos, lugares que frequenta, amizades, enfim, criar um novo modo de vida.

Na avaliação da psicóloga Regina Daibem, é por esse motivo que o trabalho do Alcoólicos Anônimos (AA) tem dado bons resultados. Segundo ela, a proposta do grupo é possibilitar o resgate da pessoa como um todo. Isso inclui a parte física, emocional e espiritual.

Ela aponta também a unidade do grupo e o desejo de ajudar quem está na mesma situação como um ponto fundamental para a recuperação. "A pessoa deixa o egoísmo e se volta para o outro. Isso tem um efeito muito positivo", afirma.

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