Cultura

?Redescobrimento? atrai gerações

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Oitenta anos após o desbravamento do caminho que se tornaria a Carretera Panamericana, elo rodoviário que interliga todo o continente americano, a saga dos brasileiros Leônidas Borges de Oliveira, Francisco Lopes da Cruz e Giuseppe Mário Fava, que traçaram a rota ao percorrerem 15 países, a bordo de dois carros Ford modelo T, em 1920, encanta diferentes gerações de aventureiros.

Antes mesmo do lançamento do livro "O Brasil Através das Três Américas", do memorialista e escritor bauruense José Roberto Faraco Braga, o "Beto", que será lançado em Bauru no próximo dia 8, para convidados na galeria "É mais Art", apaixonados por viagens culturais e pelo pan-americanismo já se empolgam com a publicação, que esmiuça os dez anos de aventura do trio, que viajou do Rio de Janeiro para Detroit, nos Estados Unidos, numa época em que estradas eram raras, seja no interior paulista, chaco paraguaio ou nas muralhas dos Andes. Um deles é o promotor de Justiça aposentado Luiz Pegoraro, que, coincidentemente, acaba de retornar de uma aventura rodoviária por quatro países sul-americanos e passando, justamente, pela rodovia desbravada por brasileiros.

Impressionado, ele conta que pouco tempo depois de chegar a Bauru, deparou-se com a edição do dia 27 (domingo passado), com matéria especial sobre o trabalho de Braga acerca dos aventureiros, que traçaram a rota internacional, mas que nunca foram reconhecidos por grande público ou livros de história.

"Como é possível esses três desbravadores não terem esse feito reverenciado?", indaga Pegoraro, que, na companhia do amigo Stanley Zaina, advogado, morador de Presidente Prudente, embarcou numa aventura de 20 dias pelas estradas, paisagens e, principalmente, histórias paraguaias, argentinas, chilenas e peruanas.

A bordo de uma Toyota SW4, ele saiu de Prudente no dia 15 de fevereiro e seguiu até a cidade paranaense de Guaíra, fronteira com o Paraguai. Passando por Assunção, chegaram ao norte argentino onde a ganharam as imponentes Cordilheiras dos Andes, até atingirem os limites chilenos e rodarem, enfim, pela Carretera Panamericana. Diferentemente do Brasil, conta Pegoraro, onde a rota existe, contudo leva outros nomenclaturas - Marechal Rondon e Presidente Dutra, por exemplo - no Chile e na Argentina a via Panamericana é uma realidade comprovada pelo bauruense, que dirigiu pela trilha um dia imaginada por três heroicos, porém quase incógnitos brasileiros.

O monte Aconcágua, ponto culminante de todo o continente americano, o oceano Pacífico, as margens do Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, a anuviados 3.821 metros acima do nível do mar, foram alguns dos cenários percorridos pela dupla.

Cheio de recordações da viagem, o promotor diz que não tira da cabeça a proeza do trio retratada por Beto Braga e se diz incentivado a novas aventuras. A próxima delas, talvez, antecipa, pode ser cruzar os Estados Unidos de uma ponta a outra. "Desde domingo não paro de pensar no que esses três passaram e por que se criou essa omissão brasileira a esse feito. Por que o Brasil não teve um braço (oficial) da via Panamericana?", insiste Pegoraro.

Quem também se encantou com a história e ainda por cima ganhou um livro antes mesmo do lançamento oficial, com direito a dedicatória e tudo, foi o estudante Alexandre dos Santos Alvarez, 12 anos, que, de tamanha paixão que tem pela cultura dos países vizinhos e viagens de aventura, chegou a colar a reportagem do JC na porta de seu guarda-roupas. Ontem, o garoto se encontrou com o autor na Redação do JC, onde ganhou o presente de Braga. Detalhe: numa viagem com a família ao Panamá, há dois anos, o menino foi outro bauruense que esteve na estrada retratada no livro. "Nunca poderia imaginar que foram brasileiros que abriram o caminho", valoriza.

? Serviço


O livro "O Brasil Através das Américas", de Beto Braga, será lançado em Bauru no dia 8, sexta-feira, com noite de autógrafos para convidados na galeria "É mais Art". Dois dias antes, a obra será lançada no Rio de Janeiro e, no dia 12, em São Paulo, no Museu Casa Brasil.

____________________

Livro concorrerá ao Jabuti


O Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da literatura brasileira, terá a obra de Beto Braga entre os concorrentes.

O livro, contudo, por causa da data de lançamento, acentua Carlos Eduardo Vieira Fendel, diretor da Canal 6 Editora, estará na lista de postulantes em categoria literária ainda a ser definida, provavelmente no campo documental, e ao título de melhor projeto gráfico, graças à inovadora capa dura com papel cartão ecológico com conteúdo em papel couche.

O fecho, no meio da capa, com um globo exibindo as Américas ao centro, é outro capricho do projeto, que, em seu kit de divulgação, ainda conta com press release moldado em papel envelhecido, até mesmo com cheiro de documento antigo. Outro prêmio postulado por autor e equipe da editora é o Fernando Pini, referência para importantes trabalhos gráficos. "Vestimos a camisa neste trabalho", orgulha-se Carlos, cuja editora, que é de Bauru, já é responsável pela publicação de mais de 400 títulos, muitos deles acadêmicos.

____________________

Mídia e missão


Beto Braga será entrevistado, nesta semana, pelo apresentador Jô Soares. A exibição, porém, ainda não tem data anunciada. Além do programa na TV Globo, estão previstas matérias em jornalísticos do SBT e na revista Veja desta semana. "Vi em Fava uma revolta muito grande com o descaso. O sonho dele era ser enterrado nos Estados Unidos. Mesmo após entregar mapas ao governo brasileiro, nunca foi reconhecido. Vamos tentar isso agora", dispõe-se Beto, que, no dia 16, iniciará uma viagem em que percorrerá toda a América, ao lado da mulher e dos filhos. Exemplares serão divulgados nos países percorridos pelo trio, que, 80 anos depois, começa a ter seus passos, finalmente, seguidos e aplaudidos.

Comentários

Comentários