Acredito que todo professor só se realiza colhendo os frutos de seu trabalho, ou seja, reconhecendo aprendizagem em seus alunos. Mas esses frutos estão cada vez mais escassos e a cobrança do produto final da aprendizagem parece ser de responsabilidade exclusiva do professor.
Não podemos nos esquecer que um professor enfrenta, diariamente, várias turmas com alunos das mais diversas origens e condutas e que responsabilizar somente a escola e seus profissionais pelos resultados insatisfatórios da educação é um erro.
Esquecemo-nos, ao divagar sobre a educação, que sua origem e base é o lar, a família. Esta sim, muito desestruturada e pouco responsabilizada pelos cidadãos em potencial que transfere para a escola com os encargos da educação. Tanto que, o termo professor foi transmutado para educador. Ora, educação não vem do berço? Esta afirmação faria do professor responsável apenas pela educação de seus próprios filhos, mas não é bem assim...
Na ânsia de utilizar a legislação para garantir direitos a crianças e adolescentes, temos sido levados a deixar de salientar que todo direito corresponde a um dever e, com isso, deveres não são reconhecidos pelos futuros cidadãos, que, quando adultos, ao se depararem com as intransigências da lei, sofrerão um choque que pode ter dois resultados: o despertar para suas obrigações ou a revolta contra um sistema que limita o que ele entendia até então por liberdade. Esta última reação pode levar a conseqüências bem desastrosas.
A culpa é de quem? A educação está obsoleta? Os professores não estão cumprindo seu papel de tornar a escola mais atrativa para todos os alunos? Como algo pode ser atrativo para tantas cabeças com sentenças diferentes e tantos direitos pra fazer valer? Falamos em tecnologia... o garoto não pode se interessar por cuspe e giz ou simples livros didáticos com gravuras inertes se passa o tempo livre jogando games de última geração... Mas onde estão os recursos tecnológicos do professor? O governo está investindo... supre escolas com alguns indícios de tecnologia que logo são depredados pelos usuários, porque, consonante com o direito de ter uma educação de qualidade, não veio o dever de preservar o patrimônio público, ou eles não fizeram questão de aprender isso.
E, justamente agora, no século XXI, quando clamam por educação modernizada, é mais comum do que se pensa encontrar analfabetos funcionais ou literais no Ensino Médio ou além (quem nunca leu as pérolas do Enem ou dos vestibulares?). Minha opinião de leiga chega até a tênue linha que separa a "Educação para todos" da Educação Democrática.
Não me julguem mal! Não estou sugerindo crianças fora da escola. Estou sugerindo que brinquemos de "sociedade" desde cedo com as crianças. Que elas saibam desde bem pequenas que só se conquista respeito dando respeito em troca; que punições podem ser proibidas para crianças, mas pesarão sobre os ombros dos adultos depois; que política não é uma atividade de ganho fácil para quem quer se "dar bem" e sim a responsabilidade de administrar honestamente os bens do povo para o povo; que cantores semi analfabetos e jogadores de futebol que estão perdendo popularidade e nunca estiveram engajados em causas sociais ou políticas não poderiam ser eleitos; que educação vale a pena sim e que isso inclui respeitar o outro como a si mesmo.
Chego à audácia de sugerir aos adultos que deveríamos exigir concursos públicos para cargos políticos. Pois assim poderíamos saber que aqueles que vamos eleger terão competência para tal, conforme garante a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que em seu artigo 6º afirma que todos são iguais perante a lei e outra distinção não há a não ser sua capacidade, virtudes e talentos.
Muitos podem ridicularizar minhas colocações, mas creio que, no caminho em que estamos, será cada vez mais comum vermos professores sendo esfaqueados ou atingidos por carteiras escolares, alunos analfabetos e indisciplinados que entendem que o cidadão só tem direitos e que respeito, quando não é para ser exigido para si próprio, é idiotice. E, principalmente, repito, os frutos da nossa "colheita" serão cada vez mais escassos, até que sejamos nós, a próxima vítima.
Erlaína Zampieri Neves - professora de educação básica I e II na área de história