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O esporte e Joaquim Cruz

Fábio Pallotta
| Tempo de leitura: 3 min

Em mais uma corajosa entrevista, o medalhista olímpico Joaquim Cruz fez uma previsão sombria para o esporte nacional sobre as conquistas de medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro: "Com sorte, só em 2020". Esse atleta polêmico por suas declarações verdadeiras está apenas constatando o que fizeram com o esporte no Brasil: investimentos altíssimos com atletas de ponta sem investir no esporte de base. Resultado: não houve renovação. Existem raras exceções, como o vôlei, que investiu anos nas bases da sua categoria e hoje colhe os frutos dessa política esportiva.

Como sabemos, o esporte é o meio mais eficaz de conseguir tirar os "jovens da situação de risco" em que vivem nas nossas periferias. Esses jovens não são atendidos quanto às suas expectativas de futuro e tornam-se "jovens invisíveis", pois periféricos, longe das nossas vistas, que só serão lembrados quando forem notícias nas páginas policiais dos nossos jornais diários. São jovens que convivem com as drogas, a violência urbana e doméstica e a baixa escolaridade de um ensino público ineficiente e desestimulante.

O próprio Joaquim Cruz era um "jovem em situação de risco", pois apesar de ter um lar estruturado, vivia em Taguatinga, na periferia do Distrito Federal, em uma cidade satélite, considerada até hoje uma das regiões mais violentas do mundo. Descoberto por um professor de Educação Física, na Escola Pública foi "desviado" do basquete e inserido no atletismo com resultados surpreendentes. Ganhou Medalha de ouro nos 800 metros nos Jogos de Los Angeles, aos 21 anos de idade.

Quatro anos mais tarde, foi prata na mesma prova e, para variar, no Brasil criticaram a sua atuação de "apenas uma medalha de prata", quando ele disparou, em entrevistas, que competir contra atletas dopados era quase que impossível. Considerado traidor entre seus pares, manteve as suas críticas e começou a ser ouvido quando a atleta estadunidense Florence Griffih Joyner, acusada de doping, abandonou o esporte precocemente e pouco tempo depois morreu do coração "misteriosamente".

Esse guerreiro do esporte brasileiro tornou-se um grande treinador de atletismo nos EUA e hoje dirige a equipe para-olímpica de atletismo no país que o acolheu como segunda pátria.

Ele comenta na entrevista que se a lei de 2005 que estabeleceu a Política Nacional de Esportes fosse implementada e estimulasse o esporte de base nas escolas como fator de inclusão social e desenvolvimento pessoal, teríamos hoje jovens preparados para o esporte e para a vida. As escolas de ensino superior (faculdades, universidades) que tem o curso de Educação Física poderiam fazer um Movimento pelo Esporte, para o efetivo cumprimento da Lei de 2005. O esporte está inserido, hoje, na Economia Criativa que gera muitos empregos e recursos da ordem de bilhões de dólares ao ano para os países que acordaram para ela.

Assim fazendo, estaríamos criando milhares de novas vagas no mercado do ensino e preparando milhões, sim é verdade, milhões dos nossos jovens para o esporte competitivo ou não e para a vida.

Acompanhando os esportes aquáticos da Itália, fiquei impressionado com um projeto bem conduzido pelo governo italiano: um sistema de piscinas regionais em todo o país que dá conta de treinar e encaminhar para o esporte competitivo 5 (cindo) milhões de jovens italianos. Eles não têm o nosso César Cielo, mas a nossa natação e os nossos esportes aquáticos não têm a expressão que esses esportes tem no país peninsular.

Detalhe: os italianos treinam de 6 a 8 meses por ano consumindo milhões de euros para aquecer suas piscinas e construir piscinas cobertas para evitar os rigores do frio europeu. Quantos meses por ano aquecemos as nossas piscinas? Precisamos de piscinas cobertas para treinar e competir?

Vamos ouvir e seguir os conselhos desse que é um gigante entre os esportistas brasileiros: aplicar uma lei que já existe, de forma honesta e produtiva, para incluir milhões de jovens em um convívio social saudável e com futuro como aconteceu na vida dele, o nosso Joaquim Cruz. Afinal, sabemos que o esporte não é apenas o futebol.


O autor, Fábio Pallotta, é professor de história e colaborador de Opinião

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