Um grupo de médicos que atuam na rede municipal de saúde entregou ofício na Câmara Municipal ontem garantindo a manutenção de equipes completas para atender a população nas unidades de urgência e emergência. Mas desde que a Prefeitura de Bauru se comprometa a pagar pelo plantão extra o mesmo que iria destinar à Fundação UNI, em projeto de lei ainda não aprovado que visa firmar convênio com a entidade para a prestação de serviços no PS da Bela Vista. O secretário de Saúde, Fernando Monti, informa que discutirá o caso com o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB). O PT, PMDB, PCdoB e PSB, partidos da base aliada do Executivo, já se manifestaram pela negociação com os médicos e pela retirada da proposta da Câmara.
A manifestação da classe médica antecedeu ao chamamento que o prefeito informou que faria. De acordo com reportagem de ontem do JC, Rodrigo participou de reunião com os partidos da base aliada na noite da segunda-feira. Segundo a reportagem, alguns representantes das legendas não estavam satisfeitos com a decisão da prefeitura de firmar o convênio e outras medidas foram debatidas. Uma delas foi justamente convocar os 180 médicos que atuam na rede e verificar quais deles estariam dispostos a trabalhar no problemático Pronto-Socorro da Bela Vista.
De acordo com um médico ouvido pela reportagem, a categoria se sentiu desprestigiada ao ver que a prefeitura estaria disposta a pagar cerca de R$ 1,2 mil pelo plantão extra de 12 horas à fundação, segundo a minuta do convênio que está na Câmara. Atualmente, os médicos da rede recebem um salário base de R$ 3,3 mil por uma jornada de 20 horas semanais, além de R$ 680 por cada plantão extra de 12 horas.
"Estamos com uma equipe reduzida. Cumprimos a jornada e, na medida do possível, fazemos o plantão extra", observa o médico que preferiu não se identificar. Ele também observa que em cidades da região, o valor pago pelo plantão extra gira na casa dos R$ 900,00. Então, o profissional cumpre sua carga em Bauru e opta em fazer o extra em outra cidade. "E em Bauru, por mais que as unidades estejam sucateadas, fazer plantão aqui é melhor, pois um ortopedista faz plantão em ortopedia, um pediatra em pediatria. Nas outras cidades, você atende de tudo. Aqui, temos essa segurança de atuar na nossa área", observa.
Os 44 médicos relacionados no ofício encaminhado à Câmara se comprometeram publicamente a garantir o cumprimento de plantões extras nos PS Central e Bela Vista, além do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), desde que a prefeitura pague o mesmo valor que iria pagar à fundação. O vereador Roque Ferreira (PT), que fez a solicitação pelo chamamento dos médicos, avalia que a prefeitura deveria abrir diálogo com esses servidores.
"Há um conjunto de fatores. Acho que essa matéria publicada hoje (ontem) no Jornal da Cidade, na qual o prefeito diz que ia fazer o apelo aos médicos também contribuiu. Os 44 médicos agora apresentaram a proposta organizada, que dá parâmetro para negociar", avalia Roque.
"Acaba desmontando a tese de que não tinha médico dispostos a trabalhar, o que justificava a privatização, terceirização. Com essa posição dos médicos, acho que o que sustentava a tese da terceirização para a Fundação UNI cai por terra. E acredito que o prefeito e o secretário vão ser sensíveis à postura dos médicos, que estão assumindo um compromisso público", ressalta o vereador.
Partidos pedem
Na noite de ontem, o PT, PMDB, PCdoB e PSB enviaram nota coletiva à imprensa, informando que, considerando a manifestação dos médicos, não se justifica a manutenção do Projeto de Lei que tramita no Legislativo, autorizando a terceirização. Dessa forma, as legendas que fazem parte da base aliada solicitam a retirada imediata da proposta e o início das negociações com esses médicos.
Prefeitura
O secretário de Saúde, Fernando Monti, informa que a pasta fez uma série de consultas aos médicos da rede para saber quem tinha o desejo de dar plantão no Bela Vista, sem sucesso. Para ele, a iniciativa dos médicos é uma novidade. "Agora, terei que conversar com o prefeito. A proposta que foi feita para o Bela Vista foi para resolver uma situação, se tiver uma outra alternativa e a gente não precise recorrer a esse tipo de proposta, ótimo. Nosso objetivo é só resolver uma situação, que é manter o atendimento funcionando. Se não houver a necessidade de fazer uma convênio desse tipo, acho perfeito", reiter. Sobre a questão salarial, ele informa que terá que conversar com Rodrigo para definir como será conduzida essa negociação. No entanto, pondera que já tramita na Câmara projeto de lei que aumenta o valor do plantão extra para R$ 940,00 e ainda institui um prêmio por produtividade de R$ 4,00 por atendimento concluído, a ser dividido entre as equipes.
População
Enquanto o caso segue indefinido, a população continua desamparada. Moradores da região do Jardim Bela Vista, Washington Willian e Isabel Cristina de Oliveira contam que na noite de anteontem precisaram socorrer o filho que sofreu um profundo corte no braço. "Como eu sabia que à tarde não teve plantão, fui na vizinha e telefonei para o PS da Bela Vista para saber se estavam atendendo. Me disseram que não tinha médico, então tive que correr até o PS Central para que ele fosse atendido", relata Isabel. "E já mandaram avisar que amanhã (hoje) não vai ter pediatra", conta Washington.