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Em falta, médicos também reclamam

Vitor Oshiro e Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 7 min

Um dos principais motivos apontados pela Secretaria de Saúde para a crise instalada em Bauru é a falta de médicos. Descontentes com as condições de trabalho, a maioria não se interessa em ingressar carreira no órgão público. Aqueles que ainda estão no cargo revelam que somente o fazem por estarem há anos no serviço. Eles listam como principais pontos de repulsa os baixos salários, a falta de estrutura, a sobrecarga de trabalho, entre outros fatores.

Hoje, o salário inicial para ingressar como médico no município é de R$ 3.360,00 por uma jornada de aproximadamente 24 horas semanais. Mas a remuneração, com adicionais e plantões, pode chegar aos R$ 11.558,40 brutos.

Os valores podem parecer altos para profissionais de outras áreas, porém, os médicos apontam que o investimento na carreira e outras oportunidades mais rentáveis repelem a procura pelo serviço público em Bauru.

"O médico precisa se dedicar integralmente ao curso, sem poder trabalhar. Fora a responsabilidade que ele tem que assumir de lidar com a vida das pessoas. O investimento na carreira é muito maior. Por isso, ele merece ganhar um salário mais satisfatório do que os R$ 3.360,00 iniciais. É um valor irrisório", alega um dos médicos que trabalham Pronto-Socorro Central (PSC) e pediu para ter a identidade preservada.

Com isso, a mão-de-obra se torna escassa e tem início uma cadeia de problemas. Outro médico que trabalha há anos no PSC e também no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) aponta que a falta de profissionais é preocupante.

"No PSC, o quadro é composto por quatro clínicos, um ortopedista e um cirurgião. Frequentemente, esse quadro não está completo. E isso acaba sobrecarregando médicos que, como eu, estão trabalhando", desabafa.

Ele revela que, na semana passada, quando o PS Bela Vista deslocou o atendimento para a unidade central, houve dias em que faltaram clínicos. "A demanda aumentou e estávamos com três clínicos. É um absurdo".


Piora no atendimento


O efeito colateral desse quadro deficitário é exatamente a piora no atendimento dos pacientes. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o tempo mínimo de uma consulta é de 15 minutos. O médico aponta que, caso fosse respeitada essa recomendação, a demora do atendimento aumentaria absurdamente. "Se hoje demora 3 a 4 horas, isso duplicaria. Em 12 horas eu faço 120 atendimentos. É um número muito grande e totalmente exaustivo".

Considerada essa média de 120 atendimentos em 12 horas de serviço, a consulta é feita em cerca de seis minutos, ou seja, o tempo empregado é menos da metade do que é considerado regular para um diagnóstico eficaz.

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Escassez de profissionais atinge planos de saúde, diz presidente da Unimed


O drama vivido pelos bauruenses é bem menor para quem tem plano de saúde. Todavia, o quadro mais confortável não chega a ser um paraíso. Além da paralisação dos médicos que atendem por meio de planos de saúde que está sendo feita hoje, também há a escassez da mão-de-obra. O fato é reflexo do crescente número de pessoas conveniadas, motivado pelo aumento de renda do brasileiro e também por muitos enxergarem o caos instalado na saúde pública. Com isso, o atendimento se torna insatisfatório.

É o que reclama o aposentado Antônio Carlos Arruda, 67 anos, que inclusive faz parte de um grupo de estudos sobre planos de saúde. "Os convênios estão cada vez mais sem qualidade. Parece que aumenta a demanda e não aumenta o quadro de médicos. Percebo que a agenda médica está mais e mais cheia e que é difícil marcar certos especialistas".

O aposentado aponta que tentou marcar consulta em um ortopedista, entretanto, a data em que seria atendido o assustou. "Só tinha horário para seis meses depois. Isso é um absurdo. Eu pago muito caro pelo plano e tenho que esperar todo esse tempo?", argumenta.

Em Bauru, um dos planos de saúde que angaria a maior parte dos conveniados é a Unimed. Segundo o presidente da filial local da empresa, médico Ajax Rabelo Machado, o número de conveniados realmente é crescente.

"No ano passado, houve aumento de 10 mil conveniados. Essa elevação de renda do brasileiro e o estado em que está a saúde pública são os principais responsáveis por esse número. Realmente a dificuldade em marcar determinados médicos é uma das nossas maiores reclamações. Por exemplo, aumenta em 10 mil conveniados, mas não se formam 10 mil médicos aqui. É algo que tentamos suprir em médio e longo prazos", explica, informando que a Unimed mantém cerca de 600 médicos distribuídos em todas as especialidades em atendimento em Bauru.

Machado aponta que há um serviço ao consumidor, no qual o paciente relata a dificuldade a uma assistente social da empresa e ela agenda consulta com outro médico, porém, da mesma especialidade.

O presidente da Unimed Bauru explica que a principal dificuldade é em marcar consultas com ginecologistas. Entretanto, alega uma realidade, no mínimo, curiosa. O dilema é em conseguir médicas mulheres.

"Há ginecologistas homens ociosos. As pacientes querem se consultar com mulheres. Isso é algo que dificulta. O profissional está lá e não pode haver esse tipo de pensamento", completa.


Mais problemas


Ainda em relação ao paciente, Ajax Machado afirma que a conscientização também é importante. "Pedimos que o paciente não deixe de ir a uma consulta marcada. Isso ocorre muito e prejudica bastante. O paciente tem que ter essa consciência".

Além desse problema, os convênios ainda enfrentam a insatisfação dos profissionais. Reivindicando melhorias nas condições de trabalho e nos valores repassados por procedimentos ou consultas, médicos que atendem por convênios em Bauru e em todo o País vão paralisar os atendimentos hoje. Serão mantidos apenas os serviços de urgência e emergência. Consultas eletivas e outros procedimentos deverão ser remarcados pelos consultórios médicos.

O presidente do Sindicato dos Odontologistas de São Paulo (Soesp), Pedro Petrere, aponta que, ao mesmo passo dos médicos, os dentistas que atendem em convênio também irão paralisar os serviços. "Só voltaremos quando houver um acordo de preços justos. Muitos dentistas levam prejuízos com o que os convênios estão pagando. Desse jeito, não dá mais", desabafa.

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Concursos não preenchem as vagas


Atualmente a prefeitura conta com 197 médicos em seu quadro, o que é insuficiente para atender os 344 mil bauruenses e mais as pessoas da região. Na tentativa de contornar essa carência, foram realizados três concursos para médicos em 2010. Entretanto, as tentativas esbarram nos "fatores repelentes". No último concurso, tomaram posse apenas dez médicos.

Havia vagas para especialidades como pediatra, infectologista, clínico geral, psiquiatra, cirurgião e ortopedista. Para clínico geral, em uma das homologações do concurso houve 14 inscritos, 11 classificados e convocados, mas apenas três assumiram o cargo. Para pediatra a situação de desinteresse foi ainda mais marcante. Em outra ocasião, houve cinco inscritos, quatro aprovados e convocados, mas nenhum candidato assumiu.

Nos próximos dias mais concursos serão abertos. "Os médicos que estão se formando já sabem desse quadro. Então, eles optam por abrir clínicas particulares ou até mesmo trabalhar no setor público de outras cidades que pagam muito mais". Conforme um dos médicos consultados, o profissional que atende em clínica particular pode chegar a embolsar R$ 1.300,00 em um único dia. "Se a Prefeitura de Bauru conseguisse chegar a R$ 5 mil iniciais, os concursos teriam mais procura."

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Plano de carreiras


Questionado sobre a falta de médicos e o que é feito para solucionar o problema, o secretário de Saúde, Fernando Monti, aponta ter buscado melhorar os salários de todos servidores municipais da saúde com a aprovação do Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS).

Os profissionais, entretanto, apontam que o valor pago aos médicos de qualquer especialidade ainda não é atrativo o suficiente.

"Não estou criticando o PCCS, mas infelizmente, o plano não atingiu os valores de mercado pagos aos médicos que atuam na rede pública municipal, pois demorou para ser aprovado. Quando o plano foi estabelecido, o salário inicial do médico era interessante para aquela época, porém, agora não é mais", finaliza outro médico que também não quis se identificar.


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