Rio - A escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, foi palco ontem do crime mais brutal num colégio do País. Por volta de 8h15, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, disparou mais de 100 tiros em duas salas no primeiro andar da escola.
Oito corpos de vítimas do ataque à escola Tasso da Silveira já haviam sido identificados pelas famílias no Instituto Médico-Legal (IML) do Rio na noite de ontem. Havia 13 corpos de vítimas no IML - dos quais apenas um é de menino -, além do cadáver do assassino. No total, incluindo o atirador, são 14 os mortos na escola.
Alertado por duas meninas que, mesmo feridas, conseguiram fugir da escola, o sargento da PM Márcio Alves trocou tiros com Wellington no corredor do primeiro andar. O atirador foi atingido na perna, caiu na escada e, segundo Alves, se matou com um tiro na cabeça. Toda a ação não durou mais do que 15 minutos. O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), decretou luto oficial de sete dias em memória das vítimas.
Wellington chegou à escola por volta de 8h15 e se identificou como ex-aluno interessado em buscar seu histórico escolar. Estava bem-vestido, de camisa verde, calça e sapatos pretos, com uma mochila nas costas. Subiu direto para a sala de leitura, no primeiro andar. Na hora, foi reconhecido por sua ex-professora, Doroteia. "Você veio fazer palestra para os alunos?", perguntou. A escola está comemorando 40 anos com palestras de ex-alunos bem-sucedidos.
Não era o caso de Wellington. Doroteia pediu que ele esperasse um pouco porque estava ocupada. Minutos depois começou a tragédia. Wellington saiu da sala, largou a mochila, colocou o cinturão com carregadores, entrou na sala em frente, e anunciou: "Vim fazer a palestra". Em seguida, começou a atirar com um revólver 38 mirando na cabeça das crianças sentadas nas primeiras filas. A outra arma, um revólver 32, não foi usada.
Uma das crianças contou ao pai que Wellington usava fone de ouvido e que ria enquanto atirava. Alguns alunos se jogaram debaixo das mesas. Outros tentaram fugir. Quando Wellington parou de atirar para recarregar a arma, Patrick da Silva Figueiredo, de 14 anos, que estava nas fileiras de trás, saiu correndo de mãos dadas com uma amiga. Mas não deu tempo. Wellington acertou a menina, Patrick escorregou numa poça de sangue e quebrou o dedo do pé.
Em seguida, Wellington foi para a sala em frente e fez novos disparos. Segundo alunos, ele mandava que os meninos fossem para a parede. Mesmo diante das súplicas para não serem mortas, Wellington atirava na cabeça das vítimas.
Quando estava no corredor, indo para o andar de cima, Wellington encontrou com o sargento Márcio Alves, do Batalhão de Polícia Rodoviária. Na troca de tiros, Alves acertou Wellington na perna. Em seguida, segundo o PM, Wellington se matou com um tiro na cabeça.
No momento do massacre, 400 alunos estavam na escola. As professoras, em pânico, fecharam as portas e bloquearam com cadeiras. No andar de cima, uma professora passou em todas as salas e mandou que os adolescentes subissem para o auditório, no quarto andar. Os alunos ficaram sentados no chão.
Os professores trancaram a porta e colocaram cadeiras e armários para bloquear a entrada.As ambulâncias não foram suficientes para socorrer os feridos. Luiz Alberto Coelho Barros, de 58 anos, passava em frente à escola quando viu adolescentes correndo em pânico. Alguns estavam feridos. "Era uma cena pavorosa. A frente da escola estava cheia de criança ferida no chão", contou. Barros levou seis feridos na carroceria da sua Kombi. "Eles respiravam, mas estavam inconscientes. Uma delas tinha um buraco na cabeça." Dois paramédicos foram na carroceria tentando prestar os primeiros socorros. Em dez minutos, escoltado por policiais, Barros chegou ao hospital Albert Schweitzer.
A Divisão de Homicídios da Polícia Civil já tinha identificado ontem o dono do revólver 32. Ela está registrada no nome de um morador da zona sul do Rio. Em depoimento à polícia, ele disse que a arma pertencia ao pai, e foi roubada em 1993. O revólver 38 está com a inscrição raspada. O computador de Wellington foi apreendido pela polícia para tentar identificar quem vendeu a arma.
O massacre deixou a capital carioca em choque. "A escola foi palco de uma tragédia, que muitas vezes assistimos pela TV acontecendo em outros continentes. O perfil do Wellington se afasta dos marginais conhecidos pela polícia", definiu Roberto Sá, subsecretário de Segurança do Rio. "Ele é um psicopata, um animal", desabafou o governador Sérgio Cabral.
Em carta, assassino fala em perdão de Deus
São Paulo - Na mochila de Wellington foi encontrada uma carta. Nela, ele fala em "perdão de Deus" e diz que quer ser enterrado ao lado de sua mãe. O rapaz também pede que a casa onde morava - em Sepetiba, na zona oeste da cidade - seja doada a instituições que cuidam de animais. A carta foi encaminhada à Polícia Civil para análise.
Premeditação
A Polícia Militar (PM) disse que a carta dá a ideia de premeditação do crime. De acordo com o porta-voz da corporação, tenente-coronel Ibis Pereira. "Ele deixou uma carta assinada como Wellington Menezes de Oliveira, sem nenhum sentido, que mostra que entrou determinado a fazer um massacre, uma chacina", afirmou Pereira em entrevista.
"Surto psicótico paranoide"
A avaliação isolada da carta, sem informações prévias do autor, não permite que se faça um diagnóstico do atirador, afirma o psiquiatra forense Marcos Gebara. Mas, para ele, "aparentemente" o texto foi escrito por uma pessoa sob um "surto psicótico paranoide delirante alucinatório". "É como se a pessoa tivesse recebido uma missão, que sabia como executar. Inclusive ele prevê a maneira como as pessoas deveriam lidar com ele já morto".
De acordo com Gebara não há sinais de que Wellington tenha transtorno de personalidade, como psicopatia. "O sociopata sempre foi assim. É uma pessoa ruim, indiferente aos sentimentos alheios, abusou dos outros. Já o psicótico é uma pessoa normal, que de repente entra em surto. Ao que me parece, é o caso desse rapaz."
Íntegra da carta
"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.
Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi.??