Bairros

Históricas e anônimas

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 9 min

De alvo de tratores e serras elétricas ao posto de cartão postal da cidade. Nos últimos dez anos, esta foi a trajetória da copaíba localizada na avenida Getúlio Vargas.

A árvore já era centenária quando, em 2001, a prefeitura apresentou o projeto para prolongar a avenida em que ela está localizada. O que ninguém sabia é que, como brinde, viria uma grande polêmica: para que a obra fosse executada, seria necessário o corte da copaíba.

Sem pensar duas vezes, os amantes do progresso a qualquer custo esbravejaram pedindo o sacrifício da árvore. Em contrapartida, a grande maioria dos bauruenses defendia a preservação. Membros da sociedade em geral, o Instituto Vidágua e os alunos da Escola Guedes de Azevedo se mobilizaram e promoveram ações, entre elas o famoso abraço na copaíba, que visavam impedir que a árvore, literalmente, tombasse.

O impasse durou pouco mais de um ano e, finalmente, o projeto foi alterado de forma que as pistas de asfalto contornassem a árvore, deixando-a em evidência. Para celebrar a conquista, foi construída uma praça no entorno da árvore, que ganhou o justo nome de Praça da Copaíba. Além disso, a árvore foi tombada, no melhor sentido da palavra.

Atualmente, quem passa pelo local não deixa de reparar em sua exuberância. O aposentado Eudes Moreira, por exemplo, morou em Bauru até os 66 anos e se lembra bem de quando surgiu a polêmica sobre a possível derrubada.

"Me lembro que a árvore não era do porte que é hoje, mas foi a primeira grande e importante ação que a sociedade promoveu para preservar o meio ambiente", recorda-se.

Atualmente Eudes mora em Ribeirão Preto. Na tarde da última segunda-feira, por conta de um compromisso, ele e o neto Pedro Moreira, 7 anos, estiveram em Bauru. Eudes conta que ficou assustado com o tamanho da copaíba e afirma que os esforços da sociedade na época da mobilização foram visivelmente fundamentais.

"Esta árvore está linda, maravilhosa. Naquela época eu mal podia imaginar que ela fosse alcançar esse porte e essa importância para a cidade", comenta.


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Pequi e timburi

Pouca gente sabe, mas um terreno compreendido entre a avenida Nações Unidas e a quadra 5 da avenida das Pitangueiras abriga uma raridade: um belo pé de pequi, árvore típica do cerrado que produz frutos saborosos, muito utilizados na culinária nordestina.

Para os moradores do Núcleo Presidente Geisel, a novidade é exatamente a raridade. Acostumados a se deliciarem com os frutos do pequizeiro, ninguém imaginava que a árvore é um dos poucos exemplares existentes em Bauru ou sequer que, por conta disso, o pé foi tombado pelo patrimônio ambiental municipal em 25 de março de 2008.

"Não sabia, não. Moro aqui há nove anos e esse pequizeiro sempre esteve aí do mesmo jeito. O que sei é que, na época dos frutos, ele atrai uma porção de gente. O pessoal adora", conta Nevismar Aparecido Machado, vizinho da árvore rara.

O sucesso do pequizeiro no bairro não se dá à toa. Apesar de possuir espinhos muito finos, capazes de ferir a boca dos mais desavisados, o pequi tem sabor adocicado e pode ser utilizado tanto em pratos salgados quanto em doces. Além disso, é rico em vitaminas e proteínas e tem propriedades medicinais e afrodisíacas.

Além do pequizeiro, o mesmo terreno abriga também duas espécies de timburi, tombadas pelo patrimônio ambiental municipal. Porém, seus frutos pretos em formato de orelha não parecem tão apetitosos aos olhos dos moradores do bairro e, por conta disso, as árvores passam despercebidas.


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Sibipiruna

Se depender das 16 árvores da espécie sibipiruna localizadas na Praça Rui Barbosa e tombadas pelo patrimônio ambiental municipal em 15 de outubro de 1993, os frequentadores do local, seus baralhos e tabuleiros nunca sofrerão por falta de sombra.

Isso porque as árvores de folhas miudinhas e tronco forte estão espalhadas por toda praça, esbanjando vida, saúde e provocando inveja nos quarteirões vizinhos, famosos pela ausência de verde típica da região central da cidade.

"Se não fosse estas árvores, acho que a praça seria um espaço vazio. Ninguém aguenta tanto calor", avalia Cícero Avelino da Graça, que frequenta o local há cerca de cinco anos.

Entre as 16 sibipirunas tombadas, existe uma que, por conta de seu porte físico, reina no espaço. Ela é uma das mais antigas do lugar, está localizada próxima à Catedral, do lado oposto do coreto, e está dentro de um cercado de concreto, que hoje serve como ponto de descanso para transeuntes e de suporte para a sustentação de seu peso. Seu tamanho é tanto que sua copa mal cabe nas fotos.

É sob ela que se reúnem, diariamente, dezenas de bauruenses para bater papo ou disputar partidas de truco, damas e xadrez. Para falar a verdade, pouco importa o jogo, contanto que ele torne as tardes ensolaradas um tanto mais divertidas.

Eribelton Cardoso Braga, Nelson Del Giudice e Cícero da Graça são três dos muitos frequentadores que têm o hábito de se reunir debaixo da sibipiruna. Eles já perderam a conta de quantos anos frequentam o lugar, mas afirmam com propriedade que a árvore sempre esteve por lá.

"Vixe, essa árvore está aqui há muito tempo. Não sei muito sobre ela, não. Só sei que a sombra dela é muito boa", opina Eribelton, cortando conversa enquanto move, atento, uma de suas pedras.

Já Nelson faz piada e afirma desconhecer que a árvore um dia tenha sido tombada. "Nem vem com essa história de tombar nada, não. A árvore tem de ficar em pé, do jeito que está", diz, em tom de brincadeira.


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Jatobá

Faça uma experiência. Pare em frente ao estacionamento localizado na quadra 4 da rua Gerson França, olhe para o alto e prepare-se para a surpresa. Ali, uma enorme, bela e secular árvore da espécie jatobá reina, silenciosa. Seus galhos são tão grandes que se estendem para o comércio vizinho, cobrem a calçada e atravessam parte da rua.

Interessante é notar que em meio ao movimento intenso, característico do Centro, o porte imponente da jatobá não é suficiente para que ela não passe, quase sempre, despercebida.

Boa parte das pessoas que transitam por lá aproveitam, por instantes, de sua frondosa sombra, porém não costumam olhar para o alto para admirá-la. Sendo assim, talvez somente uma minoria de bauruenses saiba que devido à sua beleza paisagística, história e raridade árvore virou patrimônio ambiental municipal em 21 de junho de 2007.

Newton Yanagui, proprietário do estacionamento onde a jatobá está localizada, por exemplo, não sabia que ela é preservada por lei. Ele comprou o comércio a cerca de oito meses e garante que nunca ninguém da prefeitura o procurou para falar sobre o assunto.

"Ouvi um boato de que ela é tombada, mas isso quem me falou foram pessoas conhecidas. Desconfiei porque nunca recebi nenhum documento que comprove isso. Nem placa de identificação a árvore tem", argumenta.

Sorte da jatobá que Newton gosta de árvores e não se irrita em limpar todos os dias pela manhã a sujeira que as folhas causam ao cair no chão. Sorte também que Newton faz questão de cuidar bem dela e, ao invés de cortar aleatoriamente seus galhos, criou uma rede de proteção para evitar que, caso eles caiam, atinjam os carros de seus clientes.

"Como uma árvore tão especial pode ficar a Deus dará? Se é uma pessoa que não tem paciência ia logo cortar os galhos e, provavelmente, ninguém da prefeitura ia ficar sabendo", alerta.

Segundo ele, em determinadas épocas do ano, algumas pessoas o procuram em busca de frutos da árvore. "É difícil encontrar. Pelo que sei, as pessoas usam para fazer um tipo de remédio", explica.


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Mangueira

Avenida das Mangueiras. De janeiro de 1954 até junho 1977, este era o nome da atual avenida Comendador José da Silva Martha, que corta diversos bairros da cidade, como o Jardim Estoril, Shangri-lá, Vila Santista e Vila Serrão.

Ela era chamada assim porque, em toda sua extensão, dos dois lados da via, existia uma grande quantidade de árvores que produzem a fruta de coloração amarelada e sabor adocicado. Quem se lembra daquela época garante que o cenário era lindo e tentador.

Porém, se o antigo nome da avenida fosse mantido, seria preciso uma pequena alteração: ao invés de avenida das Mangueiras a via teria de se chamar avenida de uma mangueira.

A mudança seria necessária porque, entre as pioneiras, apenas uma árvore restou. A sobrevivente do progresso avassalador que tomou conta de região fica no prolongamento do canteiro central, na quadra 11, e virou patrimônio ambiental municipal em 21 de junho de 2007.

Seu tronco forte e sua bela copa chamam a atenção de quem passa pelo local e contribuem para a bela vista criada pelo prolongamento da avenida, feito no ano passado e que, é claro, foi projetada para manter a árvore no seu local de origem.

Idair Gerônimo, que trabalha em um dos prédios localizados nas proximidades da mangueira, conta que, embora pouca gente saiba de sua importância e de sua histórica resistência, a árvore tem o carinho e os cuidados de quem mora por ali.

"O pessoal preserva porque na época da fruta a mangueira devolve os cuidados à ela dispensados em forma de deliciosas mangas. É uma maravilha", conta, animado.


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Mulungu

Na quadra 13 da rua Bernardino de Campos, na Vila Alto Paraíso, uma pequena praça abriga um exemplar raro da espécie mulungu, tombado em 10 de fevereiro de 1999.

Há muitos anos o local é ponto de encontro dos moradores do bairro, porém poucos deles sabem da importância da árvore.

Camila de Melo Afonso, que mora há nove anos em uma casa em frente à praça onde a mulungu está localizada, por exemplo, não sabia o nome da espécie e nem que a árvore tinha importância histórica.

"Esta árvore está aí desde que me mudei para cá. Ninguém liga muito para ela não. De vez em quando, vem o pessoal da prefeitura, cuida dela e da praça. Para mim é uma árvore normal", avalia.

A mulungu foi tombada patrimônio da cidade por sua beleza paisagística e raridade. Difícil não ficar hipnotizado pelas cores alaranjadas das flores do mulungu, que afloram entre julho e setembro, período em que a árvore fica desprovida de folhas.

Além de sua madeira, seus frutos são muito procurados porque contém inúmeras propriedades medicinais.

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