Minha amiga Laura vai para o Chipre e para a Croácia neste mês. A Croácia é o país que tem o litoral mais bonito do mundo. As águas do Mediterrâneo são exageradamente azuis e a costa é toda recortada por escarpas que avançam para o mar, cheia de castelos pendurados sobre as pedras.
Falei para ela tomar cuidado com os croatas. Eles são muito invocados. Desde mais ou menos o ano 900, a Croácia vive passando de mão em mão. Foi dos turcos, dos húngaros, dos austríacos, dos austro-húngaros, dos italianos (algumas
partes) e integrou a federação da Iugoslávia, comandada pelos sérvios. Tornou-se república durante a era nazista, com apoio de Hitler, quando o partido nazista croata e a guerrilha de extrema-direita Ustâse instalaram o terror. A meta era eliminar 1/3 dos sérvios, converter 1/3 ao catolicismo e expulsar mais 1/3. Para isso, construíram oito campos de concentração iguais aos dos alemães. Costumavam decapitar os monges ortodoxos e fotografar as cabeças.
Enquanto os alemães suavam para esconder o genocídio dos judeus na Polônia, os croatas fotografavam e divulgavam o genocídio dos sérvios na Croácia. Até Hitler teve que pedir para eles pararem de "queimar o filme". O mais ridículo é que os croatas são eslavos, considerados inferiores pelos nazistas arianos e nórdicos. Se a Alemanha vencesse a guerra, eles funcionariam como um tipo de feitores dos eslavos. Assim como os japoneses seriam os feitores dos asiáticos e os argentinos, os nossos feitores.
Foi para a Argentina, inclusive, que fugiu o líder dos Ustâse e do Estado livre da Croácia, Ante Pavelic, quando a guerra acabou. O Vaticano garantiu sua fuga, possivelmente em troca dos serviços prestados pelos fervorosos católicos croatas, que formaram exércitos mercenários para defender os Estados papais e os interesses dos Papas contra a Reforma Protestante. Os croatas também foram mercenários de Napoleão, quando popularizaram o uso da gravata na Europa - é verdade, a palavra "gravata" vem de "croata", ou de "Croácia".
Se você for hoje à Croácia, nunca imaginará que os croatas têm esse espírito de porco todo. É um povo ordeiro, educado e culto - mas têm esses problemas de selvageria em surtos temporais.
Na década de 1990, com o fim do socialismo na Iugoslávia e o processo de independência da Croácia, foi a vez dos sérvios. Tentaram aniquilar os croatas e os muçulmanos da região. Foram detidos pelos instintos bestiais dos americanos, que bombardearam a Sérvia, destruindo mosteiros do século VIII. Como não poderiam bombardear os americanos, os sérvios descontaram em Dubrovnic - patrimônio histórico da humanidade -, arrebentando a cidade medieval croata.
O único que conseguiu colocar ordem naquela região foi o Marechal Tito, que comandou a Federação Iugoslava desde o final da Segunda Guerra até sua morte, em 1980. Tito mandou uma "banana" para os soviéticos, tinha ótimas relações com os ocidentais - a Iugoslávia foi o primeiro país socialista a enviar jogadores de basquete para os Estados Unidos -, era amado por croatas, sérvios, eslovenos, bósnios, macedônios, kosovares e montenegrinos.
Em Bauru, na avenida Nossa Senhora de Fátima, havia o bar do Francês. O seu Jaques, o dono, só nasceu na França. Quando era pequeno, sua família se mudou para a Eslovênia. Foi educado na escola socialista. Fala francês (por causa da família), esloveno (pois cresceu na Eslovênia), servo-croata (língua oficial da Iugoslávia, na qual todos eram alfabetizados) e russo (ensinado na escola como segunda língua).
O seu Jaques mostrou fotos de Ljubliana, a capital do país. É uma obra de arte em um cenário medieval de conto de fadas. Quem olha para as fotos da pacata Ljubliana não imagina que aquele povo e seus vizinhos possam surtar a qualquer momento. Só espero, pela segurança de minha amiga Laura, que não surtem este mês.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor e colaborador de Opinião