Em seu artigo "O papel da Oposição", publicado em diversas mídias no último dia 12/04, Fernando Henrique Cardoso revelou seu lado mais cômico. Sob a velha retórica que diz "uma mentira bem contada, muitas vezes, vira verdade", FHC volta-se novamente contra os movimentos sociais e, como ele próprio diz, "o povão". Sob a ótica pouco cristalina de que a oposição deve falar à sociedade através dos meios eletrônicos, citando diretamente "Facebook, YouTube e Twitter", excluindo da platéia de seu discurso as "massas carentes e pouco informadas", como ele próprio citou, FHC vai na contra-mão dos seus pares tucanos que buscam incessantemente alcançar aqueles de quem ele quer tanta distância.
Revela, mais uma vez, que o público que deseja não é aquele que ascende de classe social, mas aquele que há tempos se consolidou na elite, e de lá deve ecoar os discursos de quem pouco fez para o "povão". Talvez se FHC não pregasse que "não deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana", não haveria ninguém para pensar o quão distante ele mesmo deixa os políticos daqueles que levam a vida cotidiana. Esta separação somente existe, e cada vez é maior, quando políticos insistem em não considerar a vida cotidiana para suas decisões. Mas FHC disse tudo: "esqueçam o povão".
Alguém se esqueceu do que aconteceu com nossas ferrovias, depois de privatizadas, do preço de uma viagem, depois dos pedágios, entre tantas outras decisões desapegadas da vida cotidiana? Mas o fato de FHC negar o discurso de seus pares que possuem mandato revela-se no mínimo curioso. Salta aos olhos a pregação de que a oposição precisa "vender o peixe", em suas palavras, para o povo. Peixe? Que peixe? Povo? Que povo? Enquanto os discursos dos honrosos presidentes de partido de oposição, tal como FHC, não se alinharem com a prática dos seus membros com mandato, não haverá peixe, nem povo, a compreender essa dualidade, esse muro com dois lados, de onde insistem em pregar suas idéias. E ao fazer mea culpa sobre a falta de capacidade da oposição de criar uma estratégia, FHC revela mais que uma simples falha: revela que nada entende de estratégia. E os membros de seu partido, como ficam? Ficam como estão: ouvindo vozes destoantes da prática que pregam. Não estranha o fato da oposição perder cada vez mais voto.
O autor, Erick Prado Arruda, é advogado