Política

?Dólar baixo não interessa ao Brasil'

Por Wilson Marini | Rede APJ
| Tempo de leitura: 8 min

As commodities agrícolas vão bem, mas a indústria paulista vive o pesadelo da desvalorização do dólar e dos juros elevados que impedem a competitividade e o seu crescimento. Essa é a visão do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. "O problema é gravíssimo porque não há como compensar com inovação, tecnologia e esforço sobrenatural uma guerra cambial onde existem outras moedas concorrentes em outras partes do mundo que estão desvalorizadas em até 20% e a nossa sobrevalorizada em 20%, o que dá uma diferença de 30% a 40%". Por entender que a questão é crucial não só para a indústria, mas para o País, Skaf anuncia a deflagração pela entidade de um processo de debates e pressão para a revisão do câmbio e outras mudanças conjunturais, como as reformas tributária e trabalhista. "O Brasil precisa se modernizar, ser mais ágil".

Eleito presidente da Fiesp inicialmente em 2004, Skaf foi reeleito no cargo em 2007, quando passou a presidir também o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp). Na última segunda-feira, foi reeleito presidente de ambas as entidades por quatro anos. Dos 123 votos válidos dos sindicatos que compõem a Fiesp, a chapa única presidida por Skaf obteve 121, ou 98,4%. Até 2015, Skaf prosseguirá à frente da entidade que é símbolo associado à força econômica do Estado de São Paulo, cujo Produto Interno Bruto (PIB) representa o equivalente a um terço da riqueza nacional.

Na quinta-feira, como demonstração desse prestígio e do papel articulador desempenhado pela Fiesp sob a sua gestão, Skaf recebeu dois ministros em seu gabinete, em momentos diferentes, no 14.o andar do prédio piramidal da avenida Paulista, em São Paulo - Ideli Salvatti (Pesca e Aquicultura) e José Eduardo Cardozo (Justiça). Antes disso, deu entrevista exclusiva ao Jornal da Cidade. Seguem os principais trechos:

JC - O que representa para o senhor a reeleição à Fiesp e ao Ciesp?

Paulo Skaf - Só tenho a agradecer a reconfirmação de confiança, o apoio e a presença nas urnas das empresas associadas de todo o Interior. Renova o estímulo e a vontade de continuar fazendo cada vez mais em prol da competitividade, do desenvolvimento do nosso Estado e dos setores produtivos.

JC - Qual o cenário que o senhor projeta para os próximos quatro anos na indústria paulista?

Paulo Skaf - A gente vive um real sobrevalorizado, enquanto outros países vivem moedas desvalorizadas, a China por exemplo. Isso rouba a nossa competitividade. Em 2011 existe um risco - temos um déficit na balança comercial de manufaturados de US$ 100 bilhões.

JC - Quais são os segmentos que mais se ressentem?

Paulo Skaf - Todos os manufaturados. Os que não se ressentem são as commodities porque têm um fluxo mais rápido e certos custos como juros afetam menos do que produtos com ciclo mais longo. E estão no momento com preços mundialmente altos, principalmente as agrícolas, soja, milho, açúcar. Eletroeletrônicos, calçados, brinquedos, máquinas, automóveis, peças, tecelagem, toda a indústria que agrega valor e emprega intensivamente, está sofrendo muito com a questão cambial.

JC - Nesse contexto, como o senhores analisa a entrada de montadoras de veículos japonesas e coreanas em Sorocaba, Piracicaba e Vale do Paraíba?

Paulo Skaf - Qualquer investimento estrangeiro no Brasil que empregue e exporte aqui, que recolha os impostos no Brasil, é bem vindo. Uma montadora que se instala aqui para fornecer ao mercado doméstico brasileiro, vejo com bons olhos. Agora, para elas possam produzir e ter competitividade, e se estimular a investir mais, não vai ser com dólar a 1,50 ou 1,60. Qualquer setor industrial que produza no Brasil com esse câmbio, vai sentir uma dificuldade tremenda.

JC - O que a liderança do setor industrial pode fazer a respeito?

Paulo Skaf - Lamentavelmente, temos um limite no poder de decisão. Tem certas coisas que quem tem poder de decidir é o governo. Por mais poderosa e representativa que seja a entidade, a decisão e a caneta estão nas mãos do governo. O que temos defendido, e vamos aumentar muito a pressão, é que os juros altos atraem capital especulativo. No primeiro trimestre de 2011, entraram US$ 35 bilhões no Brasil; no mesmo período de 2010, US$ 24 bilhões. Em 2010, a taxa Selic era de 8,75; em 2011, 11,75. Como a gente vive no câmbio flutuante, quanto mais dólares entram, aumenta a oferta, cai o dólar e diminui a nossa competitividade, sobrevaloriza o real. O primeiro passo correto seria a redução dos juros. Não só ajudaria na questão da desvalorização do dólar, como também reduziria a grande despesa pública que é o grande pagamento de juros que neste ano está estimado em perto de R$ 200 bilhões. Para comparar, a saúde no Brasil tem um orçamento de R$ 70 bilhões,

JC - Qual será a ação da Fiesp em relação à essa questão?

Paulo Skaf - Vamos nos concentrar em buscar alternativas, sugerir e formular sugestões para que o governo as execute, determine e resolva, porque não está nas nossas mãos a autoridade para mudar essas coisas. Temos autoridade como sociedade organizada de formular sugestões. E também temos autoridade de fazer pressão como sociedade, num regime democrático. Porque isso não é interesse do Brasil. A gente não está lutando por interesse da indústria. Ter importação de manufaturas que transfira os nossos empregos para outros países, China e outros, não é interesse do Brasil. Se pegar uma indústria que esteja instalada no Brasil, e se ela entender que não tem competitividade aqui, pega o seu capital e vai investir em outro país. Aí resolveu o problema daquela empresa, mas o Brasil criou um problema. Não são problemas da indústria, são do País. Não é interesse para o Brasil perder a sua competitividade, e com o real sobrevalorizado perde. Não há interesse em transferir os empregos para outros cantos do mundo porque aqui temos milhões de jovens entrando no mercado. Vamos lutar muito também pelas reformas estruturais. Não podemos continuar com tanta burocracia, com falta de reforma tributária, política e trabalhista.

JC - Como o sr. avalia o novo governo federal?

Paulo Skaf - Está muito cedo, só três meses. Mas concretamente nada aconteceu ainda. Não é fácil assumir um novo governo, escolher a equipe de ministros. Temos muitos talentos, grandes personalidades que compõem o governo, capacidade não falta. O que precisa é saber o caminho como fazer, ter a coragem e a determinação para fazer, e efetivamente fazer sem a preocupação de agradar a todos, porque aquele que quer agradar a todos, não agrada a ninguém. Quando se fala em reformas, não se agrada a todos num primeiro momento, mas a médio e longo prazos as coisas melhoram e acabam agradando a todos. E nas importações existem os instrumentos de defesa comercial que precisam ser usados contra a prática desleal (dumping) e ilegal (pirataria) de comércio.

JC - De que forma essa pressão está sendo feita?

Paulo Skaf - Não queremos fazer longe das instituições, do governo. Tanto é que estamos recebendo todas as semanas ministros e secretários de estado, no sentido de haver um entrosamento entre os novos governos federal e estadual e Poder Legislativo. Mostrar em cada uma das áreas o que a Fiesp tem feito, a nossa estrutura, saber sobre as novas ideias dos ministros e secretários e tentarmos desenvolver um trabalho pró Brasil, pró São Paulo, junto com os novos governos. Não significa nenhuma dependência, mas buscar um trabalho conjunto, sinergia, para facilitar e as coisas acontecerem. Fizemos um encontro com toda a bancada de deputados estaduais, vamos fazer com a bancada de deputados federais de São Paulo e outros estados, temos feito um trabalho contínuo com o Poder Judiciário. Construir e trabalhar de forma pró-ativa. Com independência, mas juntos, caso contrário fica uma ilha isolada reclamando e não resolve nada. No episódio da CPMF, compramos uma briga nacional porque sentimos que não havia como convencer o governo. Tivemos sucesso. Enfrentamos muitas batalhas menores que tiveram menos visibilidade. E temos muitas parcerias com governos que resultam em coisas boas para a sociedade.

JC - Quais são elas?

Paulo Skaf - Um trabalho muito forte na área da educação e formação profissional, direcionado ao ser humano.

JC - Em relação à mão de obra, as iniciativas do setor, somadas a ações do governo, estão dando resposta ao gargalo da crescente demanda pela qualificação?

Paulo Skaf - Estamos fazendo o máximo. Nossas escolas são centros de inovação em tecnologia, verdadeiras fábricas, temos laboratórios. Agora, para atender a demanda total de mão de obra, a necessidade é maior, e até não é responsabilidade do Senai resolver o problema. E creio que o Estado e o governo federal também dentro de suas possibilidades, estão fazendo o máximo. Acho que estamos no caminho certo.

JC - Qual o papel do Interior de São Paulo no crescimento do País nos próximos anos?

Paulo Skaf - Existem vocações regionais e é fundamental que haja visão regional. Em Sorocaba está indo a Toyota, vai fazer lá investimento de US$ 1 bilhão. Não adianta todos os fornecedores acompanharem a Toyota, isso vai saturar Sorocaba, a mão de obra terá que vir de cidades próximas, as pessoas vão ter que se deslocar quilômetros, aí tem um superdesenvolvimento numa cidade e carência nas vizinhas. Isso vale para Piracicaba.

JC - Não está havendo esse planejamento?

Paulo Skaf - Está havendo, começamos por Sorocaba e nos 10 municípios da região.

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