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Entre Poetas e Poesias

Juliana Faddul
| Tempo de leitura: 4 min

Eles têm menos de 26 anos, curso superior completo e são descolados. Poderiam ser engenheiros, médicos ou advogados. Não espantaria se estudassem assuntos do momento, como moda, design ou publicidade. Mas optaram por uma profissão há tempos glamourizada, porém esquecida pelos jovens. Eles são poetas. De um lado, uma canção embalando uma tarde preguiçosa. Do outro, um menino querendo entender como aquelas belas palavras conseguiam ilustrar tão bem o sentimento de um músico.

A cena anterior, contada genericamente nesta reportagem, é uma recriação das lembranças do poeta Renan Nuernberger, 25 anos. "Acho que o primeiro passo para a poesia foi por meio da música popular. Meus pais tinham alguns discos. Ainda criança, eu ouvia com prazer, decorando e analisando as letras das canções", fala. A paixão por música e por poesia acompanhou Renan por toda a sua vida, até conseguir aliar a profissão com paixão. O resultado? O livro "Mesmo Poemas" (Selo Sebastião Grifo, 2010) e um mestrado em andamento na Universidade de São Paulo (USP).

Assim como Renan, outros jovens também agarraram essa oportunidade e resolveram publicar suas obras. Alice Sant?Anna, 22 anos, escreveu o livro "Dobradura" (7 Letras, 2008); Gregorio Duvivier, com seus 24 anos, deu vida a "A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora" (7 Letras, 2009); e Laura Liuzzi, que, aos 25, concebeu "Calcanhar" (7 Letras, 2010). Atualmente, Alice e Gregorio trabalham no livro "Cartografia Afetiva do Rio de Janeiro", sem previsão de lançamento.

A história de Renan é apenas uma que ilustra o primeiro encontro entre poetas e poesias. A jornalista Alice começou a se interessar pelo tema quando foi fazer intercâmbio na Nova Zelândia, quando tinha 16 anos.

"Foi durante esse tempo que escrevi meus primeiros poemas no caderninho de viagem", fala. Já para Gregorio e Laura, a paixão começou quando tiveram contato com as obras de poetas como Victor Hugo e Lamartine e Armando Freitas Filho, respectivamente.

"Aquilo nunca me saiu da cabeça. Como pode alguém juntar três palavras tão distintas, tão desconexas, e ainda assim conseguir expressar alguma coisa? Até hoje não descobri o sentido disso. E nem pretendo", diz a cineasta Laura, sobre o livro "De Cor", de Armando Freitas Filho.

A imagem romantizada que foi criada sobre poetas e artistas pode ser muito sedutora, mas, na prática, é bem diferente. "Meu dia a dia não inclui poesia. Trabalho com cinema e tenho uma rotina bastante regular, mas nunca tediosa. ", conta Laura. Assim como Renan, que se divide entre a poesia, o mestrado e as tarefas domésticas.

"Minha vida é bastante comum. Namoro, leio, vejo TV, cozinho, lavo louça, etc...", fala. Os amigos Gregorio Duvivier e Alice Sant?Anna parecem ser os mais agitados. Gregorio tem de se dividir entre trabalhos como poeta, roteirista, e Alice entre seus três empregos como jornalista.


Ultrapassada?

Todavia, mesmo sendo uma profissão/hobbie considerada ultrapassada por alguns jovens, a maioria dos poetas afirma que não sofre preconceito por parte dos amigos, alegando que frequentam grupos em que a poesia é uma prática conhecida e respeitada. "Tento fazer piada antes deles", afirma Gregorio.

Renan conta que, mesmo na adolescência, nunca ouviu piadas de mau gosto. "Uma vez, aconteceu algo, mas a pessoa não era minha amiga. Foi num churrasco. O sujeito, bêbado, disse: ?Você é poeta? Então tira um verso aí pra gente!?. E eu respondi: ?Eu sou poeta, não repentista?. Não sou repentista, mas neste dia eu pensei rápido como um", fala.

Bem estimado pelos amigos e também pelos pais. Pelo relato do quarteto, a família teve um papel importante - porém não essencial - para a formação deles. "Nunca precisei sair do armário. E, como eles são artistas, nunca houve armário. Estranho seria se eu descambasse para a engenharia. Seria necessário um preparo psicológico", brinca Gregorio.

Para simplificar para os leigos em poesia, o poeta Heitor Ferraz, colaborador do programa literário da TV Cultura "Entrelinhas", aponta as qualidades de cada poeta destacado. "O Renan tem uma poesia mais acadêmica, que dialoga com a tradição modernista brasileira. Já a Alice é uma poeta de observações urbanas. É excelente. A Laura, por sua vez, tem um lirismo mais intimista, sem se tornar piegas. E o Gregorio, para concluir, é um poeta e tanto", define.

Para Heitor Ferraz, a poesia nunca foi esquecida pelas gerações anteriores. A atual apenas está acomodada pela agilidade e "frases soltas" na internet. "O mundo não quer leitores. Quer, isso sim, trabalhadores alienados. A dificuldade está em mostrar que pode existir um outro tempo", analisa ele. "Se eu disser a alguém que passei a tarde lendo, no sofá, ou na cama, vão me chamar de vagabundo", fala.

A falta de interesse não vem dos jovens, mas sim do mundo atual. "Em suma, o nosso mundo não crê mais na leitura, no poder da literatura".

Afinal, o que é preciso para se tornar um poeta? "Paciência. Como diria Carlos Drummond, em ?O lutador?, ?lutar com palavras é a luta mais vã?, conclui o poeta Heitor.

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