Saúde

Entre o vício e o prazer

Isis Brumi
| Tempo de leitura: 5 min

De tão gostosos, são quase irresistíveis. Mas a dúvida é: comemos demais porque somos gulosos ou somos gulosos porque alimentos compostos por açúcar refinado, carboidratos e gorduras viciam mesmo?

"Existe o prazer e o vício. A pessoa come por prazer quando, por exemplo, passa em frente à padaria, sente o cheiro do pão e tem vontade de levar alguns para casa. Já o vício é incontrolável", define o nutrólogo Edson Credidio, doutor em Ciência dos Alimentos e autor do livro "Chocolate, Bioquímica, Sabor e Saúde", da Editora Ottoni. Além do chocolate, confeitos em geral, massas, pães, queijos e carnes, ao serem digeridos, liberam substâncias que promovem sensações de prazer e bem-estar. O desejo de reviver continuamente essas emoções é que leva as pessoas ao "vício".

"Trata-se de dependência psicológica, não física. Não há liberação suficiente de substâncias que promovam tanto prazer a ponto de viciar fisicamente, como as drogas", explica Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

O limite entre o prazer e o vício, dizem os especialistas, é a perda do controle sobre a quantidade do que se come, levando a doenças decorrentes desse comportamento. Uma dieta rica em carboidratos e gorduras, por exemplo, eleva os riscos de doenças cardiovasculares e diabete.

Sem controle

"Pessoas que sofrem desse transtorno, que não conseguem controlar o impulso, têm comportamento semelhante ao de viciados em cigarro, álcool e outras drogas", observa Márcio Mancini, chefe do Departamento de Obesos do Hospital das Clínicas de São Paulo. Nesses casos, é preciso procurar ajuda psicológica.

Uma das drogas mais consumidas no mundo, a cocaína atua nos mesmos neurotransmissores que os carboidratos, açúcares e gorduras, produzindo bem-estar, felicidade e satisfação. Os demais compostos usados em seu processamento, porém, causam dependência física. "A diferença é que o viciado em comida não tem crise de abstinência", lembra Ribas Filho, da Abran.

Cada alimento, até mesmo as gorduras, executa papéis importantes para o desenvolvimento e a manutenção do corpo e devem ser incluídos nas refeições do dia a dia. O risco de "dependência" não deve servir para expulsá-los da dieta - exceto o açúcar refinado, que é uma caloria vazia, sem nenhum nutriente

Os chocolates são um bom exemplo de que nem tudo o que engorda e "vicia" faz mal à saúde. Segundo Credidio, comer 40 gramas diárias do doce, até quatro vezes por semana, ajuda a prevenir doenças crônicas degenerativas. Mas o ideal é escolher os fabricados com alto teor de cacau e, portanto, mais amargos.

Consideradas drogas legalizadas, as bebidas alcoólicas podem, sim, provocar dependência química. Mas não é preciso tirá-las do cardápio, desde que em doses diárias que não ultrapassem um copo de 40 ml. "Para se ter felicidade, é preciso ter saúde. E para ter saúde, é preciso controlar a gula", finaliza o nutrólogo Credidio, citando uma das frases do líder espiritual Mahatma Gandhi em seu livro sobre chocolates.

Para controlar o desejo por guloseimas, a nutricionista Juliane Zemdegs, da Universidade Federal de São Paulo, recomenda evitar longos períodos sem comer. "O jejum desperta a liberação de fortes sinais de fome, além de sensibilizar o sistema de recompensa do cérebro, que aciona o desejo por alimentos palatáveis", conclui.


____________________

Quem é quem

* Carboidratos, uma fonte de bem-estar

Os carboidratos refinados, como pães, bolos e bolachas feitos à base de farinha branca, são bombas calóricas porque se transformam em açúcar quando metabolizados no organismo.
A compulsão pela ingestão desses produtos se dá porque liberam serotonina - o hormônio do bem-estar. Por essa razão, pessoas deprimidas podem sentir-se emocionalmente melhor ao ingerir esse tipo de alimento. A depressão, segundo especialistas, é provocada principalmente pela escassez de serotonina no cérebro. Mas a dependência e o excesso levam a problemas físicos, como obesidade, doenças cardiovasculares, diabete e colesterol ruim alto.

* Chocolate, bom como paixão

Bombom, trufado, com recheio, ao leite, meio amargo, gelado ou derretido: o chocolate é uma das guloseimas mais "viciantes". Isso porque a digestão do doce libera feniletilamina, a mesma substância responsável por alguns sentimentos, como a paixão. Sua composição também imita a anandaída, ligada aos sentimentos de prazer e bem-estar. Além disso, o chocolate provoca a liberação de serotonina, o neurotransmissor das boas emoções, e ainda contém teobromina, que é semelhante à cafeína - e, portanto, age sobre o sistema nervoso central. Ou seja: é quase impossível resistir.

* Adoçando a vida

Ele é a essência do confeito, dos docinhos irresistíveis estampados na vitrine das docerias. Além de ser agradável ao paladar, o açúcar refinado libera serotonina, o hormônio do prazer, ao ser digerido. Mas o processo é mais complexo. O açúcar, como os carboidratos refinados, provocam no organismo a liberação de insulina. A insulina, por sua vez, capta os aminoácidos, exceto o triptofano, e os envia para os músculos. O triptofano tem mais afinidade com o tecido cerebral, sendo um precursor da serotonina. Assim, quanto maior o consumo, maior a sensação de bem-estar.

* Gorduras, mais sabor e muito prazer

Adivinhe qual é a principal função da gordura? Segundo o presidente da Associação Brasileira de Nutrição, Durval Ribas Filhos, é "dar palatabilidade ao alimento". Isto é, torná-lo mais apetitoso. A gordura saturada está nas carnes, queijos e frituras, por exemplo. Mas o poder de atração delas vai além do sabor. As gorduras saturadas instigam o cérebro a liberar dopamina, outro neurotransmissor ligado ao prazer. Viciados em churrascaria sentem na pele os malefícios do consumo excessivo desse tipo de alimento, apesar de deixarem os restaurantes quase em estado de êxtase. Gordura demais eleva o colesterol ruim, o que pode predispor a enfartes.

* Alcaloides do cafezinho são estimulantes

Vicia ou não vicia? Há quem relate dores de cabeça se ficar sem a bebida. Mas o poder do cafezinho gera controvérsias até entre os cientistas. As pesquisas não são conclusivas, de acordo com a nutricionista da Unifesp Juliane Zemdegs. Por ser elaborado com cafeína, um alcaloide semelhante à codeína (extraída da papoula), o café atua principalmente no sistema nervoso central, estimulando-o. Assim, pode causar náusea, agitação e nervosismo. Estudos em andamento, entretanto, pretendem demonstrar que a bebida pode ajudar na memória, em dores de cabeça (a cafeína é base de analgésicos) e, por meio de seus compostos, na ação antioxidante que combate o envelhecimento celular.

Comentários

Comentários