Ciências

As células são capazes de nos tolerar...

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Ao fecundar o óvulo, o espermatozoide mistura 25 mil informações com outras 25 mil e cria-se a nova combinação para gerar uma pessoa única no mundo: você! Será impossível encontrar alguém com a mesma combinação. Cada uma destas informações ou receitas é chamada de gene e são guardadas no núcleo dos 10 trilhões de células do corpo. São 10 trilhões de cópias das 25 mil informações. Quem achar uma célula sua grudada no cigarro, na xícara ou sob a unha da namorada pode cloná-lo!

Na vida intrauterina muitas substâncias passam da mãe para o filho como íons, aminoácidos, proteínas, gorduras e carboidratos. As proteínas são catalogadas e, ao nascer, este registro se fecha. Na vida temos uma memória de todas as proteínas que entraram em nossa composição durante a fase intrauterina.

A partir do nascimento qualquer proteína ao entrar em nossos tecidos terá que passar por uma checagem. Elas estão nos microrganismos, células transplantadas, substâncias e nas células atípicas do próprio corpo. Se não constam na memória, a proteína será reconhecida como estranha e combatida até ser eliminada juntamente com quem a carrega.

Temos uma célula muito poderosa que faz este reconhecimento: os macrófagos. Produzidos na medula óssea, se distribuem pelo corpo em todos lugares e tecidos. Os macrófagos são os guardiões da memória protéica ou imunológica e oferece imunidade à entrada destes componentes em nosso corpo. Ao reconhecer uma proteína estranha, o macrófago apresenta-a para uma célula conhecida como linfócito T4 auxiliar. A partir deste momento, a coordenação da reação para que o organismo destrua quem tem a proteína estranha passa a ser deste linfócito. Ele será o maestro de várias células e esta orquestra se chama sistema imunológico. A sinfonia destas reações celulares contra a proteína estranha é a resposta imunológica.

Fascinante: se novas proteínas fossem incorporadas depois do nascimento, sofreríamos mudanças estruturais durante a vida e os humanos não teriam uma forma estável e homogênea. Novas partes e estruturas seriam adicionadas e poderíamos ter formas aberrantes e monstruosas. Acho que não seria interessante!

Na verdade, durante a vida intrauterina, a construção da memória protéica serve para ensinar nossos macrófagos e linfócitos a serem tolerantes com as nossas proteínas. As proteínas que entramos em contato depois do nascimento serão estranhas e apelidadas de antígenos. Isto mesmo, não reagimos contra as nossas proteínas porque os macrófagos e linfócitos em nove meses desenvolvem uma tolerância a elas.

Quando estas células perdem a tolerância a alguma de nossas proteínas temos sérios problemas: as doenças autoimunes. Quando perde a tolerância a proteínas da pele teremos: lúpus eritematoso, pênfigo, líquen plano e psoríase. Outros exemplos de doenças autoimunes: artrite reumatóide, endocardite e glomerulonefrites. Se células que produzem insulina no pâncreas passam a ser reconhecidas como estranhas, desenvolve-se o diabete melito.

Estresse, estilo de vida, medicamentos, raios solares, alimentos e fatores herdados podem mudar a tolerância de nossos macrófagos e linfócitos ou alterar a estrutura das proteínas do corpo. As doenças autoimunes comprometem a qualidade e tempo de vida. Para combatê-las pode ser necessário tomarmos medicamentos para diminuir a atividade do sistema imunológico, mas nossas defesas ficarão diminuídas.

Quando saudáveis, digamos: meus macrófagos e linfócitos estão sendo tolerantes com minhas proteínas; que bom! Se resolverem ser intolerantes, teremos muitos danos em nossas estruturas e funções. Não deixemos isto acontecer, tudo tem limite. Para isto treinemos a tolerância aos nossos defeitos, limitações, diferenças sociais e religiosas para não chegarmos próximo aos nossos limites. Mas sempre ficam bombardeando nossas mentes com mensagens estimulando cada um de nós a ultrapassar nossos limites, especialmente no trabalho e esportes.

Cada minuto de estresse representa uma descarga de substâncias para obtermos energia adicional nesta constante superação de limites. Boa parte desta energia extra estava reservada para o sistema imunológico que sem ela pode funcionar irregularmente e perder a tolerância com nossas proteínas! Assim pode iniciar-se uma doença autoimune! Vale a pena o risco? Reflita e seja tolerante consigo mesmo, como os macrófagos e linfócitos.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. E-mail: consolaro@uol.com.br

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