Sendo mulher, é natural o gosto por batons, esmaltes, maquiagem, enfim. Quantas de nós não vestimos roupas de mulheres adultas, não colocaram salto alto da mãe, tropeçando pela casa; quantas de nós não nos enchemos de colares e brincos das avós, tias etc. É o universo feminino que aflora desde sempre, porém, crescemos e outras aptidões, outros gostos, vão surgindo além da boneca, como andar de bicicleta, nadar, correr, jogar futebol. Ah, não... futebol é coisa de menino! Assim vão se infiltrando as primeiras regras dife-renciadoras, que vão tomando outras dimensões e que, não obstante, passam a soar como inofensivas, naturais.
Os mundos vão se separando por convenções, são dadas atribuições sociais a cada um, de acordo com o sexo e não de acordo com a sua vontade. Num contexto distanciado, muitas vezes não nos apercebemos, não identificamos o quanto tudo é fracionado, dividido, sempre só em duas partes ? homem ou mulher. As exigências não atuam de maneiras iguais. Quando nos aproximamos, examinando com a lupa da realidade, do comprometimento, da busca, da indignação, do aprofundamento, nos deparamos com situações extremamente discriminatórias, machistas, até mesmo criadas por nós mesmas, mulheres. A cegueira, o não ver, a invisibilidade, também é traço que marca uma postura cultural.
Há um ano (14.04.2010), formava-se o núcleo de estudos e de aplicação da legislação de proteção à mulher, timidamente, fruto de troca de ideias, envolvendo poucas pessoas, profissionais, filhas, mães, mas mulheres. Du-rante este ano muito aconteceu, encontros, desencontros, reuniões, pesquisas, contatos e muito, mas muito aprendizado.
Constatamos que as dificuldades, como em quase tudo neste País, são enormes, desde a obtenção de dados reais até o efetivo compromisso com as políticas públicas existentes, mas por outro lado os sonhos e os objetivos também vão se materializando, na medida em que a participação, o compromisso e o cuidado, inerente à natureza feminina, se fundem.
Dessa mistura toda origina-se a esperança, a grande energia que nos move e nos faz no alvorecer de cada dia, agir na busca da concretização dos princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, tão lembrados, no entanto tão vilipendiados. Tão abstratos na Constituição dos Humanos, mas tão necessários à Condição de Humanos. Como nos adverte Leonardo Boff, vivemos dias de profundo descaso, de abandono, de falta de cuidado. É tempo de repensarmos as relações homem-mulher, a partir do nosso cotidiano, é ele quem dita os comportamentos sociais padrões. Vivemos, como diz a lenda do beija-flor, levando nossas gotas d?água, tentando apagar o incêndio da floresta!
A autora, Rossana Teresa Curioni Mergulhão, é juíza de Direito em Bauru, mestre em Direito, pós-graduada em Antropologia e docente