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Os desafios da democracia numa sociedade totalitária

Luiz Renato Vedovato
| Tempo de leitura: 3 min

A luta pela democracia no Oriente Médio pode ser mais complexa do que imaginam os seus protagonistas. De fato, ao se verificar a situação da mulher naquelas sociedades, percebe-se que muito há a se fazer. Algo parecido pode ser visto no Brasil, país que tem tentado construir, especialmente desde a promulgação da Constituição de 1988, a sua democracia. Porém, pode-se dizer que a república está longe de alcançar ideais democráticos. Não apenas por não existirem canais claros de participação popular em decisões sobre políticas públicas, mas também por não existir a consciência democrática arraigada na população.

Tento me explicar convidando o leitor a olhar para os vínculos sociais que testemunha todos os dias. Pensemos na relação entre pais e filhos, por mais que haja uma constante ampliação de questionamentos por parte dos filhos, é comum ainda se perceber que poucas explicações claras são dadas pelos pais aos filhos.

A falta de clareza sobre fundamentos de decisões também pode ser vista na relação entre professores e alunos, que, frequentemente, se sentem injustiçados quando recebem suas avaliações e, raramente, ficam satisfeitos com as justificativas. Tanto há pais que dizem que a obediência dos filhos e filhas deve ser total quanto professores que se sentem ultrajados quando recebem questionamentos dos alunos.

A democracia pressupõe a defesa dos direitos fundamentais, mas, nesses países, grande parte da população não percebe a negação desses direitos. Posso cometer um erro, mas diria que poucas pessoas conseguem perceber que a conduta de seus pais, professores ou superiores hierárquicos deixaram-nas mal por conta de violação a princípios democráticos básicos. A dignidade humana nessas relações é ignorada solenemente. Nas relações trabalhistas, a falta de democracia é mais clara ainda. Somada à questão da mulher, o superior hierárquico pouco explica ou puramente ignora a necessidade de aplicar as normas constitucionais democráticas ao seu dia a dia de trabalho, deixando seus subordinados com a sensação de que se não cumprirem poderão ser demitidos (uma constante ameaça em um mundo capitalista). Além de se perceber que a mulher recebe salário menor do que o homem por funções idênticas. Dessa forma, a construção democrática da sociedade fica limitada, pois o indivíduo se acostuma a ver direitos fundamentais longe de sua realidade. A responsabilidade de pais, professores e empregadores é clara para a construção de uma sociedade participativa, dando alicerce firme a uma república democrática.

No rumo de uma sociedade ideal, os relacionamentos devem ser cada vez menos impessoais, os filhos devem participar cada vez mais das decisões familiares, os alunos devem ter acesso à informação e à clareza nas repostas dos professores e os trabalhadores, mulheres e homens, devem ter o direito de ver a dignidade ser posta no seu cotidiano profissional.

Óbvio que isso pode ser imaginário, mas o que a sociedade desses países precisa fazer é iniciar essa trilha. Trazer para o seio da família, da escola e do trabalho a certeza de que há um direito regulando aquela relação e, mais, que as pessoas querem respeitar esse direito. Essa utopia está tão longe de ser alcançada quanto as democracias brasileira e árabe de serem concretizadas. Logo, é fácil perceber que os desafios das democracias brasileira e árabe são tão grandes quanto são para um recém-nascido abandonado os obstáculos para conseguir alimento e água no deserto.


O autor, Luiz Renato Vedovato,é docente da Faculdade de Direito da PUC-Campinas

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