As lojas de material de pesca da cidade eram frequentadas quase que diariamente pelos componentes da grande caravana que dentro de poucos dias partiria com destino ao rio Araguaia. Ali, compravam anzóis de todos os tamanhos, linhas, molinetes, carretilhas etc. A caminhonete baú ? F-4000 - usada para esse evento, no dia marcado, saiu de Bauru lotadinha com a tralha dos pirangueiros. Eram barcos, barracas, motores de popa, fogã, panelas de todos os tipos, além de bagagens pessoais. Todo aquele material dava tranquilamente para abrir um comércio especializado no ramo. Só vendo tudo aquilo para acreditar.
Em outro carro viajavam o chefe da equipe, Zé Birruguinha, com mais três companheiros.
Foram dois dias e duas noites para chegarem na fazenda onde pretendiam pescar. Era visível a ansiedade do pessoal, pois em todo o deslocamento o assunto era caprichar em tudo para alcançar o esperado sucesso.
Lá chegando, armaram as barracas, puseram os barcos na água, testaram os motores, deixando tudo pronto para o dia seguinte.
Enquanto isso, do barranco alguém de molinete já tentava fisgar algum peixe.
Ao amanhecer, saíram todos para pescar e ao mesmo tempo fazerem o reconhecimento do rio para então durante a noite realizarem uma rodada. Menos para o Zé, pois esse trajeto já era por demais conhecido por ele de outras pescarias.
Nessa primeira saída pegaram alguns pacus, dourados etc.
Bem à tardinha, um dos barcos já estava preparado para a pesca noturna. Lanternas quase que não precisava, pois era noite de lua cheia e estava tão claro que parecia um dia. Foram descendo, descendo e de vez em quando era fisgado e embarcado um bom peixe.
Era quase meia noite, lua no meio do céu, há alguns quilômetros abaixo, ouviu-se um esturro de onça pintada.
Os pirangueiros a bordo tremeram de medo, sendo acalmados pelo Zé que, de remo, pilotava o barco sem fazer barulho. Mais um esturro acompanhado de rosnados ensurdecedores.
Para tranquilizar o pessoal do barco, o Zé garantiu que se tratava de uma onça pintada já conhecida de outras passagens por ali e que nada iria acontecer. Com certeza ela está em uma grande pedra que existe logo após a curva, disse. Dito e feito. A pintada estava sentada na pedra do jeitinho que o Zé falou.
Um dos pirangueiros, o qual levava uma espingarda calibre doze, carregada com chumbo grosso, fez menção de atirar no animal no momento em que chegasse na distância de tiro.
Com seu remo, o piloteiro abaixou o cano da arma do companheiro, dizendo para todos em voz baixa:
- Por favor, fiquem quietos que nada vai acontecer, pois essa onça já a conheço de outras pescarias. Ela é mansinha.
Nesse exato momento, o bichou saltou no rio e veio silenciosamente nadando em direção do barco. Aí o desespero aumentou. E mais uma vez o Zé teve de acalmar a turma que, atenta, olhava para o animal ali bem pertinho do barco. O medo era tanto...
Quando a pintada emparelhou com a embarcação, ali bem pertinho, o Zé para provar o que tinha dito, passou a mão sobre a cabeça da fera lhe fazendo carinho e em seguida dando-lhe o maior peixe que havia pegado.
A onça abocanhou o presente do Zé, voltou para a pedra e fez seu grande jantar.
Foi assim que o Zé Birruguinha provou para todos que realmente era ele o "amigo da onça".
Do livro "Coisas da caserna e estórias do Zé Birruguinha", de Orlando Álvares de Araújo