A falta de álcool anidro para ser adicionado à formulação da gasolina está elevando o preço do produto a um patamar jamais visto. Porém, mais do que isso, esta escassez poderá fazer com que o combustível deixe de ser vendido em alguns postos. A não ser que o governo federal tome algumas medidas para contornar a situação, o consumo ilimitado da gasolina permanecerá ameaçado pelo menos até meados de maio, segundo avaliam donos de postos de combustíveis.
Eles argumentam que o preço de custo da gasolina subiu, ontem, para R$ 2,66. Como geralmente trabalham com uma margem de lucro mínima de R$ 0,35, são grandes as chances de o litro do combustível ultrapassar a barreira dos R$ 3,00 ao consumidor nos próximos dias.
Além de pagar caro, os motoristas poderão sofrer com a falta do produto no mercado, já que os proprietários de postos têm encontrado dificuldades para adquirir o combustível junto às companhias distribuidoras. O próprio diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, reconheceu nesta semana que poderá haver ausência de gasolina em alguns estabelecimentos brasileiros em razão da escassez de álcool anidro. Por lei, para que possa ser comercializada, a gasolina precisa conter 25% deste tipo de etanol - que é diferente do álcool hidratado vendido diretamente nas bombas.
Os preços do litro do álcool combustível também atingiram médias históricas, mas agora oscilam entre R$ 1,97 e R$ 2,00, valor ainda alto, porém menor do que os R$ 2,25 registrados no início do mês. Como consequência da elevação, houve uma debandada de consumo para a gasolina que corroeu os estoques de etanol anidro.
Como resultado, o álcool anidro pago pelas distribuidoras dobrou de preço desde o início do ano e, na última semana, subiu de R$ 2,10 para o nível recorde de R$ 3,00, mais caro do que o litro da própria gasolina. Por consequência, a alta teve de ser repassada para os postos e, destes, para o consumidor.
"Ainda nesta semana, o preço da gasolina deverá chegar aos R$ 3,00. Em outras cidades do Estado e mesmo nas rodovias da região, já há postos vendendo a R$ 3,10 e R$ 3,15. Com a elevação de custos, não há outra saída que não aumentar os preços", observa o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) em Bauru, José Antônio Reghine.
Medidas
Na avaliação do empresário Edivaldo Tuschi, uma solução seria reduzir a porcentagem de álcool anidro adicionado à gasolina. A mesma medida foi determinada pelo governo federal no início do ano passado para aumentar a oferta de álcool hidratado e reduzir seu preço nas bombas até o início da safra de cana-de-açúcar, em abril.
"Se o álcool anidro está sendo vendido a R$ 3,00 para as distribuidoras, por que o governo não baixa novamente a concentração desse combustível na gasolina para estabilizar os preços? Os valores não iriam reduzir radicalmente, mas poderia ser mantido num patamar de R$ 2,79 para o consumidor", analisa.
Uma das explicações para que a medida não tenha sido tomada até o momento - em uma situação muito mais crítica do que a vivida no início do ano passado - seria a falta de gasolina no mercado. Se o teor de álcool anidro fosse diminuído para 20%, por exemplo, por consequência a porcentagem de gasolina passaria de 75% para 80%, o que poderia reduzir ainda mais a oferta deste combustível nos postos.
Uma outra saída, já sinalizada pelo governo, seria reduzir a tributação sobre a gasolina para impedir que a elevação dos preços na refinaria chegue ao varejo. O objetivo final seria evitar que a alta desenfreada de preços pressione o índice geral de inflação.
Economistas já avaliam que a escalada poderá fazer com que, já em abril, a inflação nos últimos 12 meses ultrapasse o teto da meta do Comitê de Política Monetária (Copom) para este ano, de 6,5%. A saída - que ainda não foi entendida como necessária - seria reduzir a tarifa da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), tributo incidente sobre a importação e comercialização de gasolina e diesel.
Diante da alta de preços, a ideia era de que o governo pudesse absorver os R$ 0,05 de imposto cobrados pela Petrobras por litro de gasolina. O valor, em teoria, seria descontado em toda a cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.