O fim de uma angustiante procura para a família Felix da Silva encerrou-se com o reencontro de irmãos em Bauru. Ontem, Luiz, Marinalva, Zefinha, Gedalva e Gilberto vieram encontrar o irmão Felizardo, 73 anos, que não viam há 59 anos. Felizardo mora em Bauru e é o primogênito do casal alagoano Olímpio e Olavia Felix da Silva, ambos falecidos.
A reunião não foi apenas entre os irmãos e mobilizou todas as gerações da família presentes à festa promovida para celebrar um novo momento dos Felix da Silva.
Os irmãos nunca deixaram de se procurar. Um anúncio na Internet propiciou a reaproximação. Lá no Rio Grande do Sul, Maristela, esposa de Cosme Felix da Silva, filho adotivo do casal Olímpio e Olavia, cruzou na rede mundial com um anúncio da filha de Felizardo, Viviani, procurando os irmãos de seu pai. Imediatamente, a notícia da possibilidade de ser o primogênito passou a circular entre todos.
Felizardo manteve contato até com um sobrinho que reside no Japão. Um dos momentos mais emocionantes ocorreu no dia 16 de março último, quando Viviani ligou para o tio Augusto, que reside no Rio de Janeiro, contato que deu a certeza do reencontro. Não foi desta vez que Felizardo e Augusto trocaram um caloroso abraço. Augusto tem a saúde fragilizada e a emoção de saber, após quase seis décadas, que o irmão mais velho está vivo pode ter mexido com seu emocional.
Salete, outra irmã de Felizardo, teve que ficar no Rio para cuidar de Augusto. Cosme, que reside no Rio Grande do Sul, também não pôde vir à comemoração em Bauru. Do total de 11 irmãos, Josefa e Zemiro já faleceram.
De Maceió, Alagoas, veio Marinalva, casada com Denildo e mãe de Gilberto, um dos inúmeros sobrinhos de Felizardo. Os outros irmãos e familiares vieram em caravana de São Paulo e da região do Grande ABC. Felizardo é pai de cinco filhos, Solange, Rosenwaldo e Wellington da Silva, secretário da Liga Bauruense de Futebol Amador (LBFA), provenientes de seu primeiro casamento. Viviani e Olímpio Vinícius Dalboni da Silva nasceram do casamento com Carolina Dalboni.
O casal já completou 28 anos de convivência e resolveu se casar no ano passado apenas para reafirmar o amor que um sente pelo outro.
Festa no hospital
Felizardo teve um problema na perna direita e foi internado no Hospital Estadual durante os últimos nove dias. Os irmãos não aguentaram a expectativa de revê-lo e foram em comitiva visitá-lo, um grupo na última quinta e outro na sexta. Ontem, Felizardo teve alta médica. Apesar da confraternização no hospital, ele não resistiu à emoção ao chegar na residência em que a família se hospedou no Vale do Igapó. Cada um vinha com uma foto do álbum de família. Bastou ver a imagem do seus pais para ele chorar de emoção. "Perdoei meu pai e queria muito ver ele novamente", comenta. Gilberto lembra que quando chegava no Rio, dona Olavia perguntava se Felizardo tinha vindo.
A história da família alagoana é parecida com a de muitas que migraram da região nordeste para a sudeste e sul. Os pais e filhos desembarcaram de um pau-de-arara em 1952 no bairro do Braz, em São Paulo. De lá, já foram para Pompeia. Em seguida, a família se mudou para a fazenda Santa Izabel, no município de Tupã. Foi nesta época que o menino Felizardo fugiu para Bauru. Tempos depois, a família migrou para o município de Maringá, no Paraná, se estabelecendo na fazenda Santa Terezinha.
Olímpio juntou esposa e filhos e retornou a Alagoas, para a cidade de São Miguel dos Campos. Gedalva foi a primeira que se mudou de Alagoas para o Rio, seguida posteriormente por Augusto e Salete. Depois, eles trouxeram seo Olímpio e dona Olavia, que morreram, respectivamente, com 86 e 89 anos.
A fuga do adolescente para Bauru
Apesar de já terem se encontrado, os irmãos se emocionaram ontem quando Felizardo chegou para a comemoração familiar em uma residência do Vale do Igapó. Uma das mais emocionadas pelo reencontro, Marinalva comenta que ficou ansiosa para vir de Maceió a Bauru. "Agora, esse aqui não vai fugir mais nunca", brinca.
Primogênito, Felizardo sentiu a "rédea curta" imposta pelo pai. No auge da adolescência e não aceitando mais as surras, o garoto Felizardo caiu no mundo de chinelos, vestes simples e uma trouxa de roupas. Subiu em uma composição de passageiros da Paulista rumando para Bauru.
O ainda menino Felizardo já sabia como conquistar as pessoas. Conseguiu dissuadir o "chefe" do trem a deixá-lo viajar escondido. Ao chegar em Bauru, o garoto de 14 anos se viu sozinho e descobriu que não conhecia ninguém na cidade. Felizardo chorou ao relembrar do aperto dos primeiros dias em Bauru, dependendo da doação de alimentos e sem lugar para tomar banho. Seguindo pela rua 15 de Novembro, na época ainda calçada com paralelepípedos, chegou à Igreja Santa Terezinha. O padre da paróquia Pedro Paulo Koop, que viria a ser nomeado bispo em Lins, acolheu Felizardo.
O padre encaminhou o adolescente para a Casa do Garoto, após dois meses. "Todos os domingos, ele me levava para almoçar em sua casa", relembra. Koop manteve as visita a Felizardo mesmo após assumir as funções de bispo em Lins.
Felizardo começou a trabalhar na Tipografia e Livraria Brasil, de propriedade de João Martins Coube. João e sua esposa Carmem apostaram no rapaz. Felizardo passou a estudar e se profissionalizou como marmorizador na tipografia. Completados 18 anos, foi residir em uma pensão. Na volta do serviço militar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, seu emprego estava garantindo nas empresas da família Coube.
Felizardo guarda as marcas no corpo das surras que levou de seo Olímpio, mas deixou no passado qualquer mágoa do pai, de quem fala com muito carinho. Ele conta que retornou a Tupã para tentar localizar os familiares e chegou a deixar uma mensagem em uma rádio local.
Em outras oportunidades, os irmãos quase se cruzaram em Bauru. Sua irmã Josefa frequentou Bauru por um período sem saber que a qualquer momento poderia dar de cara com o irmão mais velho. Josefa, já falecida, acompanhava Izabelli, hoje uma adolescente de 16 anos, para um tratamento no Centrinho. A filha de Josefa, Vânia Aparecida da Silva, sobrinha de Felizardo, comenta que os familiares sempre tiveram esperança de um dia localizar o tio tão comentado por todos os familiares. Outro que andou muito próximo de Felizardo foi seu irmão Gilberto, que por cerca de dois anos, trabalhou em Bauru e região com entrega de roupas.