Articulistas

Cartilha para caminhadas

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Deveria existir uma cartilha para ensinar as pessoas a passear em Bauru. Quase todo mundo só vai na Getúlio. Andar na Getúlio pode ser bom - tem o lado do pessoal se paquerando, do pessoal com os cachorros -, mas não traz a mesma riqueza que é andar por outros lugares.

Se você sair da estação da Noroeste, lá no centro, e ir andando em direção ao Estoril II, dá para observar, através da arquitetura das casas, as décadas que se passaram.

Na Rodrigues há construções dos anos 1930. Aí você vai subindo, e passa pelas décadas de 40, 50, 60, chegando ao Estoril nos anos 70 - nas casas que sobraram em pé, é lógico.

Então você pode descer até o Tênis de Campo, ir até o Cemitério do Ipê e entrar na estrada de terra que acaba no Lago Sul. Lá, pode experimentar uma paisagem rural. De dia, quase não tem perigo.

"-Mas dá para andar tudo isso? Em um dia?"

Dá para andar muito mais. Eu pesava 78 quando comecei com essas caminhadas, em setembro, e agora peso 67. Emagreci sem precisar ou querer, só por causa das trilhas. Ou seja, se quiserem emagrecer mesmo, não adiantam essas dietas psicodélicas da lua, de Júpiter... o pessoal tem que andar.

Além disso, quando você anda muito, seu corpo começa a expelir uns líquidos que regulam seu humor e você tem a sensação de estar feliz inexplicavelmente. Não precisa ganhar nada, nem gastar um tostão. A sensação vem e pronto, você está feliz. Ou acha que está - mas em se tratando de felicidade, isso tanto faz.

Já na paisagem rural depois do Cemitério do Ipê, você começa a deixar a parte social da contemplação da caminhada e passa para a parte natural. A sociedade e a cultura bauruense vão dando lugar ao vazio, ao silêncio, à normalidade total da natureza. Não tem Restart, propaganda, barulho... é lindo.

Não sei por que a maioria das pessoas só acha bonito o que é descomunal e extraordinário. Nossa cultura do exclusivo nos empurra a admirar sempre algo exagerado, como as cataratas, os alpes, o Himalaia... por que não podemos achar lindo esse conjunto da estrada de terra, com a casinha em cima do morro e o cavalo balançando o rabo?

"-Ah! Porque esta é uma paisagem muito comum! Tem em todo lugar!"

Se você andar por aí todos os dias, variando o caminho, garanto que vai sempre achar um caminho novo. Nunca se repete. Nada é tão comum, se observarmos direito.

Desse modo é muito mais fácil estar satisfeito com o lugar onde você mora. Você começa a gostar de sua própria cidade e vai ter vontade de cuidar dela. Ou não vai fazer nada, o que já é grande coisa hoje em dia. Não destruindo, já está muito bom.

Essas caminhadas imensas em Bauru e Piratininga podem cansar muito o corpo - já descobri que tenho hérnia de disco -, mas são muito produtivas para o trabalho e para a vida pessoal. Depois que comecei com essa história, parei de fazer idiotices.

Eu era um botequeiro dos mais fiéis. Comecei a achar que só existia diversão dentro do bar. Nada que não tinha cerveja envolvida poderia ser legal. Hoje eu olho para os bares lotados de gente, com aquele enfrentamento de olhares, aquela guerra de hormônios, aquela coisa de instintos à flor da pele, e quero ir para casa.

Já atravessei aquela fase de ficar pensando: "-Ai, será que eu não estou perdendo alguma coisa?" Não. Não estou perdendo nada. O dia seguinte será sempre mais interessante. Pelo menos é isso que eu me propus a esperar.

E quando o dia não for bom, as caminhadas darão o tempo certo e a tranquilidade para pensar no assunto e só depois fazer alguma coisa. A possibilidade de cometer asneiras se reduz ao mínimo.

Na semana passada, eu estava chegando de uma dessas caminhadas, quando passei em frente ao Tauste. Ouvi um som do Pink Floyd, que vinha do estúdio do Zé Paulo (o músico), na Gustavo Maciel. Fiquei escutando e olhando pelo vidro o pessoal tocar aquele som: "-Remember when your were young, you shone like the sun..."

A rua estava lotada de pessoas e carros passando rapidamente. Tão rapidamente, que não perceberam o mini show ao vivo do Pink Floyd, tocado pela banda do Zé Paulo, em plena Gustavo Maciel, de graça, em uma quinta-feira à noite.


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor e colaborador de Opinião

Comentários

Comentários