Agudos ? Ontem, durante todo o dia, a Polícia Civil de Agudos (13 quilômetros de Bauru) fez diligências para tentar localizar os dois adolescentes de 17 anos suspeitos de atirar na cabeça do estudante Paulo Henrique Parra, 18 anos, após uma briga ocorrida na noite de anteontem, próximo a uma escola estadual no Jardim Europa. Até o fechamento desta edição, eles não haviam sido encontrados. A vítima, que permanecia internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base (HB), em estado regular, deve ser transferida para o quarto ainda hoje.
De acordo com o delegado Jader Biazon, responsável pelas investigações, os dois suspeitos de cometer o crime já foram identificados. Relatos informais de familiares dos jovens à polícia apontam que Paulo agredia e humilhava um deles com frequência. Cansado, ele teria decidido se vingar do desafeto e chamado um amigo para ajudá-lo.
O delegado diz que os parentes dos adolescentes alegaram desconhecer a existência da arma, provavelmente um revólver calibre 22 ou 32, que ainda não foi localizado. Ontem à noite, ele foi até a Escola Estadual (EE) Professora Nilza Maria Santarém Paschoal, onde os envolvidos estudam, para tentar levantar mais informações junto aos estudantes que possam colaborar para o andamento do inquérito policial.
Se a participação dos suspeitos for efetivamente comprovada, Biazon conta que eles poderão responder por tentativa de homicídio, com pena de internação de até três anos na Fundação Casa. "É um caso de difícil prevenção. Seria equiparado a um crime passional, eu diria. Só com a localização desse adolescente para a gente saber o que efetivamente ocorreu", diz.
Procurada novamente pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Educação informou que, tanto a Diretoria Regional de Ensino de Bauru, quanto a direção da escola, só vão fornecer mais detalhes a respeito do assunto após a conclusão das investigações.
"O aluno foi socorrido e a direção da unidade está acompanhando seu estado de saúde junto à família. Nesta terça-feira (hoje), a Diretoria de Ensino enviou uma equipe de supervisores à escola a fim de orientar a direção quanto às medidas sócioeducativas a serem intensificadas junto a todos os estudantes e à comunidade escolar", declara.
Briga e tiros
Segundo colegas dos envolvidos, a briga entre os três jovens, que resultou na tentativa de homicídio contra Paulo Henrique Parra, pode ter começado com uma discussão banal ocorrida há cerca de uma semana durante uma partida de futebol em uma quadra poliesportiva localizada na Vila Vienense.
Na ocasião, após uma dividida, a vítima teria chutado a bola contra o suspeito do crime. A ação gerou uma discussão que evoluiu para briga com socos e pontapés, onde Paulo teria levado vantagem. No último final de semana, os dois voltaram a se encontrar e Paulo, novamente, teria agredido o adolescente.
Anteontem, por volta das 19h10, os dois suspeitos teriam abordado a vítima na avenida Ovídio de Conti, ao lado da escola estadual onde os jovens estudam - dois deles cursam o primeiro ano e um o segundo ano do Ensino Médio. Após uma nova briga, segundo testemunhas, Paulo teria acertado um soco no rosto do adolescente.
Na sequência, a vítima teria sido imobilizada pelo segundo adolescente com uma "gravata" para que o agressor atirasse contra ele. No total, segundo a polícia, foram efetuados três disparos, mas dois "picotaram" e apenas um atingiu o jovem na parte posterior da cabeça.
Paulo foi levado por conhecidos, em um carro particular, até o Pronto-Socorro (PS) de Agudos e, de lá, transferido para a UTI do HB de Bauru, onde foi submetido à tomografia e avaliado por um neurocirurgião.
Segundo as últimas informações fornecidas pelo hospital, o jovem não foi submetido à cirurgia porque a bala teria atingido sua cabeça "de raspão". No final da noite de ontem, ele estava consciente. A previsão é de que hoje, ele tenha alta da UTI e seja transferido para o quarto.
Legislação branda
O delegado Jader Biazon admite que, atualmente, qualquer pessoa que queira adquirir uma arma de fogo consegue atingir facilmente o seu objetivo em razão da falta de rigidez das leis. "Infelizmente, eu acho que a nossa legislação é branda no que tange à repressão ao porte e posse de arma de fogo", avalia.
Segundo ele, as punições para quem mantém uma arma ilegal deveriam ser revistas. "Acho que a lei acaba não inibindo aqueles que queiram adquirir uma arma ou manter uma posse de arma", afirma. "Quando você vai combater a aquisição de armas, é o cidadão de bem que acaba tendo esse direito restrito porque as armas acabam, pelas fronteiras, entrando no país e chegando nas mãos dos criminosos".
Psicóloga atribui violência a
necessidade de autoafirmação
Na opinião da psicóloga Dalva Taborianski, a atitude de violência dos adolescentes pode ser explicada pela necessidade que os jovens têm de se autoafirmar, associada à falta de uma estrutura familiar voltada para o ensinamento de valores e o exercício do diálogo. "O adolescente acaba tendo que ter uma liderança no grupo para se destacar. Se ele não tiver essa liderança, ele vai ser vítima de bullying", diz. "Além disso, eu vejo que os pais têm estado permissivos demais e ausentes. Ou permitem ou se ausentam de estar por perto dos filhos, em qualquer camada social", diz.
A dificuldade de lidar com as emoções, até mesmo em uma disputa esportiva - uma das causas que pode ter resultado no crime - é acentuada, segundo a psicóloga, pela violência escancarada nos jogos de videogame e tão apreciada pelos jovens. "Eu vejo que os pais fazem o que podem e o que não podem para comprar esses joguinhos de videogame que são muito agressivos", afirma. "Eu tive acesso a alguns deles e todos matam, todos têm tiros, e as crianças ficam muitas horas sob o domínio dessa emoção".
De acordo com ela, o jovem acaba vivenciando essa realidade dos jogos assim como qualquer adulto vivencia e se envolve emocionalmente com um filme que tenha um bom enredo. "E quando eles vão para uma partida de futebol, que é o caso, ou qualquer competição ou lugar que eles tenham que conter emoções, eles não conseguem", diz. Essa falta de autocontrole, somada às experiências que eles têm em casa, onde as coisas são resolvidas na base do grito ou da agressão, contribui para que ele queira resolver as coisas de uma forma violenta. "Ele vai resolver da maneira que ele aprendeu", pontua.
Taborianski ressalta que os pais sempre devem ficar atentos ao comportamento dos filhos. "Eles devem estar conversando, dialogando, sentindo a tristeza do filho", orienta. Ela conta o exemplo raro de um adolescente de 16 anos que buscou ajuda em seu consultório após uma desilusão amorosa auxiliado pela mãe. "Geralmente as mães não percebem", conta. "E eles (jovens) sofrem muito por causa de questões afetivas, porque o outro pode mais ou na força ou no dinheiro, ou no status".
O fato da vítima ser acusada de constantemente agredir e humilhar um dos agressores, na opinião da psicóloga, também pode ter desencadeado um processo de liberação do que ela chama de ódio contido, baseada na expressão "olho por olho, dente por dente". "O jovem é impetuoso. Ele não vê a questão do apaziguar as coisas", revela. "É um ódio contido, guardado. E eu acho grave isso".