Diante de tantas "estórias" contadas por pescadores - verdadeiras ou não -, criou-se na sabedoria popular um mito alimentando uma tradição. A pecha de "mentiroso", sem nenhuma análise preliminar ou comedimento, é imposta a um pobre ser que, na pior das hipóteses, apenas busca "conseguir apanhar alguns espécimes da fauna ictiológica mediante uso de engodos, materiais e armadilhas próprias, lançados nos rios, mares, lagos, pequenas lagoas e tanques artificiais", ou seja, simplesmente pescar!
E chega de tanto pedantismo ou frescura mesmo, com essa linguagem rebuscada, tão distante do matuto simplório, mas sapiente senhor das florestas e pântanos, pirangueiro dos bons, que mal conhece o linguajar erudito dos homens da cidade. E ele pesca como ninguém! Conhece cada palmo de rio, desafia os igarapés, corta as águas em sua tosca e fina "canoa" que, vista ao longe, quase desaparece sob seu franzino corpo a remar...
Seu material, ao contrário dos sofisticados molinetes, é apenas uma simples "linha de mão" que termina num anzol fosco e surrado. Mas ele é pescador! E como tal, embora pouco falante - mais pensa do que fala -, contou-me, usando o seu peculiar português "acaboclado", esta "estória fantástica" da qual ele, "seo Juvenal", foi protagonista. Foi mais ou menos assim:
- "Acordei com o cantá du galo, primero do que o "sor"! Tava escuro feito breu! Juntei meu facão, minha linhada, minha espingarda véia de dois cano mais meu saco de mio seco e saí pela marge du rio pisando na terra moiada da chuva que tinha caído tarde da noite. Quando já "crareava" o dia, passô pur mim feito uma bala uma capivara das grande fugindo dos caçadô! A coitada, de assustada que tava, se infiô no saco junto cum as espiga e por ali ficô! Foi só amarrá a boca e deixá pra pegá na vorta! Facinho, facinho! Siguindo o caminho, levei outro susto que meu coração inté gelô. Num é que dois pato servage tava voano e se bicano por causa do mesmo pexe que pegaro na lagoa vizinha do rio? O pexe ia de bico pra bico no ar, sem caí nu chão. Os pato num mi viru e batero os dois no cano da minha espingarda véia, que disparô pro arto. Era um pato pra cá e o outro pra lá, dismaiadinho! Tô pegando os pato pra mor de por no saco junto com a capivara e num é que cai bem ali na minha frente um baita urubu, mortinho, mortinho! Êta espingarda boa, acertô sem mirá no comedô de carniça! Nisso, eu dei pur farta do meu facão. Na confusão, ele escapô do meu cinto e caiu bem em cima do rabo dum tatu que tava passando e prendeu o bichinho nu pé dum tôco. Foi mais um pra mor de enchê o saco! Aí foi que conteceu o pior... Quando me viro pru lado, tô de cara com duas baita onça pintada. Duas! E das grande! E tava as duas cuma cara de quem fazia um meis que num cumia! Sem pestanejá, finquei o facão no chão moiado, encostei o cano isquerdo da véia espingarda nas costa do meu cortadô de cana, mirei bem e puxei o gatilho: buuummm! A única bala que tinha se partiu em duas metade e zuniu pra cima das onça! Cada metade passô raspando na oreia de cada onça! Co baita susto, as duas pintada pularo no rio e fizero a maior espumera na água! Fôro nadando e sumiro rio abaixo! A água do rio feiz uma onda tão grande que mi arcançô e mi deixô moiadinho feito um pintinho. Quando óio pros pé de mato, bem na minha frente, tava pulando dois baita curimba cum mais de cinco quilo cada um! Dá pra imaginá o peso das onça? Conseguiro jogá pra fora do rio os dois pexão! E o saco tava lá, esperano... Foi só jogá pra dentro. Foi uma coisa de lôco. Sem fazê esforço nem usá minha linhada de mão, levei pra casa uma capivara, dois pato, um tatu e dois curimba. O urubu eu deixei pras onça caso elas vortasse. Caçá e pescá é fáci, u senhor num acha, sêo Fernando?"
Fernando Lucilha Júnior, é contador de histórias e pescador que ainda usa molinete e vara de bambu, apesar dos "consêio" do "sêo Juvenal".