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Inflação e câmbio: desafio de um controle simultâneo

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

Compartilho com os analistas que apontam a difícil missão da equipe econômica do atual governo em controlar duas importantes variáveis ao mesmo tempo: a taxa de câmbio e a inflação. É que podemos chamar de cobertor curto. Ao longo destes anos, a política monetária foi à tônica central do controle da inflação no Brasil. A qualquer sinal de aumento generalizado de preços o Banco Central aumentava a taxa de juros básica, restringia crédito e promovia um aperto monetário. Sem outras medidas preventivas, principalmente no controle dos gastos públicos, este tipo de correção se apresentou como uma "droga" necessária, o que gerou uma verdadeira dependência, criando uma armadilha que levou o país a praticar a maior taxa de juros real do planeta. A estabilidade de preços gerou confiança nos agentes econômicos e, considerando o potencial do mercado brasileiro, observou-se crescimento econômico (mesmo que abaixo do necessário em alguns períodos).

Estabilidade, controle monetário, mercado potencial, democracia, entre outras variáveis, soam como música aos ouvidos do capital estrangeiro (além das recomendações das agências de análise de risco). Neste ambiente, seria natural a atração do capital estrangeiro. Os juros altos potencializaram a entrada do capital estrangeiro. Observem o cobertor curto que mencionei. Juros altos ajudam a combater a inflação, mas inibem o crescimento e atraem capital estrangeiro. Maior oferta de dólares no mercado, com baixa demanda pela moeda americana, derruba a taxa de câmbio. Junte-se a isso tudo os vários preços indexados à inflação passada, os ingredientes para dúvidas na condução da economia se afloram. É o momento de coragem para tentar romper com este circulo vicioso. Primeiramente continuar a promover o controle dos gastos públicos, atualmente fonte primária de geração de inflação. Em seguida praticar uma politica monetária menos rígida. Depois criar mecanismos de controle da entrada e saída do capital estrangeiro no país (tarefa nada fácil dada a volatilidade do mercado cambial ? talvez as reservas cambiais robustas nos permitam ousar nesta questão) e, em seguida, criar condições para o país ser mais competitivo internacionalmente, combinado com a mexida estrutural.

Decisões nada fáceis, mas que devem ser tomadas, preparando o país para efetivamente ser apontado como uma das principais economias do mundo em futuro próximo. O enrosco de curto prazo não pode ser limitante para a criação de condições estruturais favoráveis para o país crescer sustentadamente no médio e longo prazos. Vale ressaltar que o presidente Lula fez sua sucessora, portanto, deixou a herança que aí está. Não é fácil domar inflação e câmbio, mas como dizia Margareth Thatcher, quando se referia à liderança, mas que pode ser utilizado para a equipe econômica do atual governo: "Ser líder é como ser uma dama: se você precisa provar que é, então não é."


O autor, Reinaldo Cafeo, é economista e articulista do JC

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