Polícia

Bairros onde vivem idosos estão na mira de assaltantes

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Fisicamente mais frágeis e mais receptivos à aproximação de estranhos, os idosos estão se tornando alvo em potencial dos assaltantes de residências em Bauru. Concentrados principalmente em bairros da zona sul e Centro, eles são considerados vítimas mais fáceis de serem dominadas pelos criminosos, que costumam arquitetar criteriosamente sua ação.

Na manhã da última segunda-feira, um casal de aposentados teve a casa invadida por três homens encapuzados e armados, no Jardim Estoril. Ainda que os pertences levados não tivessem grande valor, o trauma de ter a tranquilidade da última fase da vida violada é difícil de ser superado.

A Polícia Civil afirma que este foi o primeiro caso de assalto a residência de idosos neste ano, mas o JC tem conhecimento de pelo menos mais duas ocorrências desta natureza registradas apenas na última semana. Assim como no primeiro episódio, os outros roubos também deixaram marcas profundas na família vitimada pela violência. Em um deles, uma senhora de mais de 80 anos foi ameaçada pelos ladrões e, por negar-se a abrir o cofre da residência, foi avisada de que eles voltariam a invadir o imóvel.

Além desses três casos, na manhã de ontem outro casal de idosos foi feito refém em um assalto no Jardim Santana. Ainda que não fossem o alvo inicial do crime, eles foram rendidos em casa por criminosos que fugiam da Polícia Militar (PM) e levados no próprio veículo até o Jardim Araruna, às margens da rodovia Marechal Rondon, onde foram abandonados.

De acordo com o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), a área onde ocorreu a maioria dos últimos assaltos - a zona sul de Bauru - é uma das mais visadas pelos criminosos, justamente por concentrar um grande número de residências cujos moradores possuem alto poder aquisitivo. A região central também é alvo de assaltantes pelo mesmo motivo, mas Garcia destaca que outros pontos da cidade não estão imunes a este tipo de ocorrência.

"Os assaltantes nunca escolhem uma casa a esmo. Eles vão procurar locais onde hajam bens para serem revendidos ou trocados nas ?bocas?. Como há bairros em outras áreas da cidade que também possuem casas de padrão elevado, estes locais também poderão ser foco dos ladrões", observa.


Plano de ação


O comandante explica que outro fator determinante para a escolha do alvo é a facilidade para ingressar no imóvel. Antes de efetuar o assalto, os criminosos costumam planejar bem a ação e, claro, optar pelos caminhos que reduzam os riscos de erro.

Para chegar à conclusão final, eles passam a observar por dias a casa candidata a alvo do crime e seus moradores. Nesse sentido, os idosos se tornam vítimas em potencial. "Pela própria dificuldade de mobilidade, as chances de um idoso conseguir chamar por socorro se tornam menores. E como ele é mais frágil fisicamente, raramente oferecerá resistência que ameace o plano traçado pelos assaltantes", detalha Garcia.

Ainda que as pessoas da terceira idade sejam mais vítimas de golpes aplicados por estelionatários do que de assaltos, a maior suscetibilidade delas em aceitar a aproximação e se deixar envolver por conversas ardilosas de estranhos também as fazem tornam mais propensos a assaltos dentro de casa. "Uma pessoa que pede um prato de comida como desculpa para observar o interior da casa consegue ser atendido mais facilmente por um idoso, que tem mais dificuldade de desconfiar das más intenções das outras pessoas", avalia Ana Maria Benjamim, presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi).

Para ela, outro fator que deixa os bauruenses da terceira idade mais vulneráveis é a própria falta de precaução, já que, depois de terem vivido todas as aventuras e agruras da vida, eles experimentam um momento mais tranquilo e, por isso, se sentem mais seguros. "Não passa na cabeça da maioria que uma violência dessa possa acontecer. Mas é preciso se dar conta de que o mundo não é mais o mesmo. A criminalidade espera uma brecha para agir."

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Atenção


Para tentar impedir a ação dos assaltantes, os moradores devem adotar uma série de estratégias e modificar alguns hábitos cotidianos, já que os criminosos se valem da facilidade de acesso ao imóvel e também do estudo da rotina da casa. Segundo o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), os idosos - principalmente aqueles que vivem sozinhos ou apenas com o companheiro - devem ficar atentos à movimentação de pessoas estranhas em frente à residência e também a telefonemas de desconhecidos.

"O criminoso certamente passará em frente ao endereço várias vezes, poderá inventar uma desculpa para ligar para a casa e conversar com os moradores para descobrir o que precisa para executar o assalto. Depois que ele se certifica que se tratam de pessoas idosas, fica mais fácil para agir", observa.

Entre as recomendações, está alternar o horário para varrer a calçada ou colocar o lixo na rua, não estacionar o veículo na garagem se houver pessoas suspeitas nas imediações, reforçar os pontos mais vulneráveis da casa com grades e cadeados e testar periodicamente o funcionamento de alarmes, cercas elétricas e sistema de monitoramento por câmeras que porventura tenham sido instalados no imóvel.

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Recuperação do trauma pode ser lenta


O trauma deixado por um assalto dentro do ambiente doméstico é difícil de ser superado por qualquer vítima. Mas, quando o alvo são pessoas idosas, os obstáculos para superar o episódio e retomar a rotina do dia-a-dia podem se tornar ainda maiores.

No caso de um casal de aposentados bauruenses roubados há um ano, a recuperação só se tornou possível depois que saíram da casa que foi palco de toda a ação dos criminosos, no Jardim Estoril. Rendidos por três homens encapuzados e armados quando entravam na garagem de casa após uma sessão de cinema, eles tiveram o carro, aparelhos eletroeletrônicos, joias e dinheiro roubados.

"Eram 22h30, estávamos voltando de um passeio tranquilo e, de repente, nos vimos dentro daquele pesadelo. Foi uma cena muito forte e difícil de esquecer", relembra o aposentado de 68 anos, que pediu para não ter a identidade divulgada.

Antes da fuga dos assaltantes, ele e a mulher foram trancados dentro de um cômodo do imóvel e, quando conseguiram sair dali, a vida nunca mais foi a mesma. Apavorados, eles decidiram se mudar para um apartamento em outro bairro, onde acreditam, hoje, conseguir viver com uma sensação maior de segurança.

"A gente foi superando aquele momento aos poucos, mas ainda fica meio receoso, mesmo vivendo no apartamento e só saindo durante o dia. Na hora de sair da garagem, quase sempre aquela sensação passada vem à tona", comenta a vítima. No processo de superação do trauma, o aposentado conta que precisou contar com a ajuda de parentes, amigos e da própria esposa. "Não fizemos tratamento psicológico. Apenas nos apoiamos na fé e decidimos tocar a vida para frente", completa.

Na avaliação de Ana Maria Benjamim, presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa (Comupi), outra estratégia para retomar a vida normal é recorrer a grupos de terceira idade que, além de proporcionar momentos de distração em grupo, também oferecem apoio psicológico e de assistência social. "Os grupos também podem ajudar nesta orientação de como eles podem se prevenir contra a ação de assaltantes", acrescenta.

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