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No pequenino, o grande perigo

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

O homem, desde o despertar da sua consciência existencial, vem sendo fascinado pelo infinitamente grande, o mundo cósmico. Da contemplação da lua e das estrelas, passou a querer saber o que eram. Foi observando o seu brilho, umas mais que outras, e as mudanças de posição conforme a hora e a época do ano. Sem instrumentos, mas usando a magia das propriedades do triângulo, chegou a medir a sua distância. A luneta de Galileu Galilei, em 1604, dá início à exploração do espaço com instrumentos. Os planetas são distinguidos das estrelas, fica comprovado que a Terra é redonda e gira em torno do Sol e a lei da gravitação põe ordem em tudo. Vêm os telescópios, cada vez com maior alcance. O homem chegou à Lua. Não satisfeito, com um satélite o homem colocou no espaço um potente e sofisticado telescópio, o Hubble, que continua desmistificando as superstições do até então indevassável. Até Bauru vem contribuindo, fornecendo o primeiro astronauta brasileiro, Marcos Pontes.

O mundo infinitamente pequeno começou a chamar a atenção numa fase mais adiantada da consciência existencial, primeiro por inspiração filosófica e depois por experiências empíricas. Enquanto no mundo do grande o homem quis ver cada vez mais longe, aqui o homem quer ver cada vez mais perto. Não se satisfez com a ideia de que tudo poderia ser resumido ao átomo, atribuída ao filósofo grego Demócrito, 450 a.C. Com as experiências de Rutherford, no século XX, o átomo já não era mais uma partícula indivisível, mas uma estrutura semelhante à do universo, com os elétrons girando em torno do núcleo. O núcleo também se tornou divisível e a busca pelo cada vez menor continua. À semelhança do telescópio Hubble, para devassar o universo, o homem construiu na Suíça o Grande Colisor de Hadron, na tentativa de encontrar o que se supõe seja a menor partícula subatômica, o "bóson de Higgs". Essa partícula é que teria dado início ao nosso universo, com a sua explosão denominada Big Bang. Bauru também tem presença na pesquisa de partículas com os físicos Oscar Sala, falecido o ano passado, e Armando Turtelli Filho, pesquisador da Unicamp.

Um outro mundo voltado para o pequeno, que também se tornou fascinante, é o da divisibilidade dos seres vivos. Iniciada com a descoberta da célula pelo cientista inglês Robert Hooke (1635-1703), e de que ela tinha um núcleo, pelo botânico escocês Robert Brown (1773-1858) não se parou mais. Chegou-se aos cromossomos e neles os genes e à decifração do genoma. E mais, que no fim tudo se resume aos elementos que não têm vida ? hidrogênio, nitrogênio, carbono, fósforo etc. Marcelo Gleiser, em "Criação Imperfeita", diz: "Dos mistérios que nos inspiram, talvez o mais instigante seja entender como a matéria inanimada tornou-se viva, e como nossos primeiros ancestrais, minúsculas bolsas de moléculas animadas, transformaram um planeta rochoso num oásis de atividade biológica em meio a um cosmo frio e indiferente."

Esta síntese, embora rústica, é para lembrar que as pesquisas empreendidas para conhecer o infinitamente grande, o cosmo, e o infinitamente pequeno, o mundo subatômico, têm trazido grande progresso para a humanidade, criando tecnologias em todos os campos ? na produção de alimentos, na medicina, nas comunicações, nos transportes, em tudo, enfim. Mas essa busca incansável, contudo, possui o lado negativo, pelos riscos que encerra. A pesquisa para devassar o universo talvez só ofereça risco para os indivíduos que dela participam, mas a manipulação do pequenininho universo subatômico e biológico traz riscos para a própria humanidade. Quem pode realmente controlar a radiação atômica e as mudanças transgênicas? Quem garante que não venhamos a ter destruição em massa ou aparecimento de monstros transgênicos, como vemos nos filmes de ficção? Vejam quantas ficções já se tornaram realidade. Jeremy Rifkin, em "O Século da Biotecnologia", acentua: "Praticamente todo organismo geneticamente construído colocado no meio ambiente representa uma ameaça potencial ao ecossistema. [...] Como são seres vivos, esses organismos são inerentemente mais imprevisíveis, no sentido de que interagem com outros seres vivos."


O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras

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