As máquinas que moem cana começaram a trabalhar a todo vapor na última terça-feira na Della Coletta Bioenergia DC Bio, em Bariri (56 quilômetros de Bauru). Este ano, a safra não foi antecipada porque não sobrou cana da safra passada para moer, explicou o diretor superintendente José Roberto Dalla Coletta. "Normalmente, para antecipar o início da safra para março ou começo de abril, é preciso dispor de cana."
Para atender a um apelo do governo federal, que pediu a antecipação da safra para controlar o preço do álcool combustível, a empresa teve que fazer uma aplicação aérea de maturadores a fim de adiantar o amadurecimento da cana.
"Choveu muito nos meses de fevereiro e março do ano passado. Fato que atrapalhou o plantio da cana. Esta cana também seria moída no início de abril", explicou.
Na opinião de Della Coletta, dois fatores influenciaram na falta de etanol anidro. "A quebra da safra de cana ocorrida no final do ano passado e a seca que aconteceu durante o ano prejudicou o desenvolvimento da lavoura colhida no final da safra. O aumento do consumo de gasolina além do planejado obrigou a importação tanto de gasolina quando de anidro."
Com o início da safra, o preço do anidro deve baixar, prevê. "Certamente, com o decorrer da safra o preço do anidro deverá baixar, haverá maior disponibilidade do produto." Colleta frisa que as indústrias são projetadas para produzir etanol e açúcar, e não tem como fabricar um só.
"O máximo que se consegue mudar no mix é de 2%. Isso porque você tem que utilizar sempre o máximo da capacidade instalada da fábrica. Capital parado é custo e prejuízo. Nosso mix de produção foi de 50%, ou seja, 50% da cana industrializada (ATR) foi para açúcar e 50% para etanol."
Na usina de Bariri, 50% do açúcar a ser produzido e o mesmo percentual de etanol já estão vendidos. " O açúcar é para exportação a ser entregue entre maio a novembro. O etanol é para o mercado interno, para ser entregue entre maio/2011 a abril 2012. O açúcar tem seu preço ditado pela Bolsa de Nova York, enquanto o etanol é o preço de mercado pela data de entrega."
Estado de SP produz 54% da
cana-de-açúcar destinada a etanol
Segundo dados da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, o território paulista vai produzir 54% da cana-de-açúcar destinada ao etanol no Brasil. Cerca de 46% vão para o açúcar. São 43 milhões de hectares ocupados pela matéria-prima. A nossa região ocupa 38% da área total do Estado de São Paulo no item plantação.
Como o preço do açúcar esteve e continua em alta no mercado externo, a tendência é que as usinas elevem a produção, prevê Maurício Lima Verde. "Há um forte atrativo para a produção de açúcar. No ano passado, a Índia teve problemas e elevou demais o preço do produto. Para o exportador, é mais vantagem fabricar o açúcar. Ele não é patriota, quer maior lucro. Além do que, a demanda por etanol diminuiu por causa da elevação do preço."
Lima Verde enfatiza que no Estado de São Paulo houve um crescimento de área plantada de 3%, mas uma série de problemas, a estiagem é um deles, a cana não está rendendo o que se esperava.
"A cana está com um índice de sacarose menor do que o esperado, algo em torno de 3 a 4 % nesse início de safra. É bastante no índice de sacarose. A cana pesa menos e a produtividade é menor."
Menos cana para moer é sinônimo safra menor que pode, se a situação não melhorar, significar que o preço do etanol nas bombas de combustíveis vai continuar alto. Outra hipótese é o produto faltar para o cliente final, analisa o engenheiro agrícola da Associcana, Denis Vitte.
"A colheita mecânica está se alastrando. Na região de Bauru, está em torno de 70%. Só 30% do corte ainda é manual. O uso de máquinas diminui a produtividade. A perda é grande, maior do que o corte manual. Na região está difícil mão de obra. O pessoal que trabalhava na cana foi absorvido em outros setores, fizeram curso de mecanização, motorista etc", avalia Vitte.
Proteção Divina
Como acontece todos os anos, no início da safra em Bariri há uma bênção que pede proteção aos 1.850 trabalhadores que irão para a colheita, moagem e cultivo da cana, explica o diretor-superintendente da Della Coletta Bionergia DC Bio, José Roberto Dalla Coletta.
"Nunca é demais pedir a proteção divina para as pessoas que irão trabalhar. A bênção aconteceu no dia 10 de abril, porque nos dois domingos seguintes a igreja católica celebrou o Domingo de Ramos e a Páscoa."
Governo põe o dedo
O vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, Maurício Lima Verde, garante que não vai faltar etanol para os brasileiros. A certeza vem de uma portaria baixada pelo governo federal facilita e autoriza a importação de etanol dos EUA.
"A portaria autoriza a importação de etanol dos americanos. Etanol de milho que é altamente subsidiado. Faltar o produto no Brasil não vai. Além do que, a maioria dos veículos são flex e o brasileiro está abastecendo com gasolina que está mais em conta. É claro que é uma chantagem que o governo está fazendo para as usinas produzirem mais etanol do que açúcar", comentou.
Cosan alega que cumpre cronograma
A Cosan, maior usina do mundo em produção de álcool, está cumprindo o cronograma inicialmente previsto, que era de moer até a primeira quinzena de abril, informa a assessoria de imprensa. "Ainda não temos a previsão desta safra ? estes dados estão sendo fechados e serão divulgados assim que estiverem liberados."
Em relação aos preços do álcool anidro, aquele que é misturado à gasolina, segundo a assessoria de imprensa, os preços se elevaram por conta da entressafra e pelo alto consumo da gasolina. "Com o início da safra, a tendência é que esses preços sofram uma queda, de acordo com o mercado."
Com capacidade de moagem de 60 milhões de toneladas de cana-de-açúcar para a safra 2009/2010, a companhia detém uma participação aproximada de 10% no mercado brasileiro. "As operações de açúcar e etanol são realizadas em 23 usinas, quatro refinarias e dois terminais portuários, sendo um para o açúcar e um para o etanol. Atualmente, as unidades estão concentradas no estado de São Paulo." Uma das unidades fica em Barra Bonita.
Estiagem reduz produtividade,
aponta estudo meteorológico
De acordo com entrevista concedida pelo engenheiro agrônomo Marco Antonio dos Santos, da Somar Agrometeorologia, à Agência Estado, a produtividade da safra 2011/12 de cana-de-açúcar que começou a ser colhida está menor que o registrado em anos anteriores por conta das intempéries climáticas ocorridas em 2010, como a longa estiagem ocorrida entre os meses de abril a outubro. Além da idade dos canaviais, acima dos três anos, na maior parte. A expectativa é de que a produção nacional de etanol e açúcar se mantenha aquém da demanda do mercado.
"Além disso, o excesso de dias nublados e chuvosos ocorridos no verão acarretou uma diminuição nas taxas de ATR, o que diminuiu ainda mais os índices de produtividade", disse ele. O engenheiro informa também que a colheita da cana já se iniciou em praticamente todas as usinas da região centro-sul do Brasil.
O bloqueio atmosférico que se formou sobre a região central do Brasil, impedindo o avanço da frente fria, manteve o tempo firme e ensolarado durante todo esse período, o que permitiu que a colheita fosse realizada em todas as regiões produtoras de SP, MG, PR, GO, MS e MT.
Segundo os modelos meteorológicos da Somar, esses próximos três meses serão muito bom para a realização da colheita da cana, uma vez que não estão previstas a ocorrência de vários dias consecutivos chuvosos. Outro fator que poderá favorecer a produção é a temperatura, haja vista que está previsto um outono e inverno um pouco mais rigoroso do que anos anteriores. "Assim, com um maior período de seca e temperaturas mais frias, a tendência é que haja uma maior concentração de ATR, o que beneficiará a produção tanto de açúcar quanto de etanol", explicou.