Tribuna do Leitor

Devaneio anárquico


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Há muito, o conceito sobre anarquia vem sendo transfigurado. E não se trata de um simples conceito. Grande parte de nossos dicionários associam a palavra à bagunça e desordem. A essência do Anarquismo, embora utópica, é a negação. Negação do princípio da autoridade. Negação à opressão. Negação à arbitrariedade descabida. É, talvez, a ideologia política mais pura e ingênua que existe, onde todas as pessoas buscam viver em harmonia baseando-se na igualdade e no respeito mútuo, sem a necessidade de governantes ou líderes.

Sim, é uma utopia. Alguns chamam até de surrealismo, mas o fato é que o anarquista é, acima de tudo, um sonhador. E tem que ser tratado como tal, e não com essa visão difamada de rebelde e baderneiro.

Quando John Lennon gravou "Imagine", foi chamado de gênio e símbolo de esperança em um mundo que caminhava rumo à ruína. Não foi chamado de rebelde ou desordeiro. A música é, dentro da arte e entre outras coisas, um ícone no que diz respeito à ideologia anarquista. Todavia, é vista como algo alegórico... sem importância real. Traz uma sensação de reflexão, mas é algo efêmero. O maior argumento de quem trata a anarquia como caos é a situação hipotética de que alguma pessoa sair por aí cometendo crimes sem poder ser punida. Eis o grande engano.

O fato de um estado não possuir um líder não quer dizer que, necessariamente, não existam regras. O problema é que isso está além da medíocre concepção capitalista que, como narrou o jovem Werther de Goethe em uma de suas cartas: todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência.

Mesmo em pequenos grupos uniformes, que não têm um "comandante", existe um código de conduta implícito. Isso se chama moral. Trata-se de um valor que ainda existe em muitas pessoas e é fácil de perceber. Sabe quando você passa na rua e um velhinho deseja bom dia ou quando você senta na beira de um campinho para assistir a uma pelada e alguém que nunca te viu na vida te chama para jogar também? Isso é a moral. Um tácito e igualitário código de boas maneiras. Uma sociedade igualitária e fraterna é o que realmente importa.

A conclusão disso tudo é triste e irrefutável: o anarquismo está atrelado à ideia de bagunça. Desordem. Revolta. Rebeldia. Caos. Isso nos força a rever nossos conceitos.

Anarquismos é a bagunça que nossos ilustres políticos fazem nos plenários. Escândalos inadmissíveis acontecem um após o outro: mensalões, guardar dinheiro de propina na cueca. Favorecer empresas em licitações a troco de favores e/ou dinheiro. Desvio de verbas públicas ao superfaturar obras. Criação de bolsas-auxílio ao invés do investimento em educação em empregos. Senhoras e senhores, segundo vocês mesmos, isso é Anarquia.

Anarquismo é a desordem de nossas polícias que são mais desorganizadas e menos armadas do que as facções criminosas. Polícia que muitas vezes comete abusos e uso indevido de força com civis e prega os direitos humanos para os bandidos. Polícia que é omissa em atividades preventivas. Polícia que cria a "indústria da multa" para punir condutores de veículos e fazem de suas viaturas verdadeiros carros de corrida. Polícia que não cumpre o seu papel de nos proteger e faz com que tenhamos que pagar os flanelinhas para não roubarem ou riscarem nossos veículos. Isso é anarquia?

Anarquismo é a revolta dos milhares de cidadãos que necessitam de atendimento médico em hospitais públicos. Faltam leitos. Faltam médicos. Falta equipamento. Faltam enfermeiros. Falta boa vontade. Falta comprometimento. Falta respeito, pois ninguém gosta de hospital e ninguém fica doente porque quer. Isso é anarquia!?

Anarquismo é a rebeldia que o povo mostrou nas últimas eleições. Rebelaram-se contra a política, contra a demagogia e contra uma coisa chamada coeficiente eleitoral ? que elege o partido que tem mais votos e não o candidato. Esse sistema de distribuição de poder fez com que candidatos de verdade tivessem que dividir espaço com artistas e ex-atletas profissionais, que ajudaram a enfeitar a lista de candidatura. Ou para conseguir mais espaço na mídia, ou para puxar votos para seus colegas, ou na esperança de realmente se eleger e ganhar seu "dinheiro fácil". Foi isso o que aconteceu com o nosso ilustre palhaço, que não foi eleito pela sua competência parlamentar, mas pela "rebeldia" que o povo manifestou contra a "bagunça". Duas vezes anarquia!

Enfim, todo esse caos tem um nome. E não é anarquismo. É capitalismo! Se a definição de anarquia fosse tudo isso que foi mencionado, o Brasil seria o país mais anarquista da Terra, mas não é.

É um lugar onde a desigualdade social reina e o asco que os privilegiados têm pelos pobres é o que torna o Anarquismo tão utópico. Finalizo e reitero essa tese usando novamente as palavras do extraordinário Goethe: As pessoas de condição elevada mantêm habitualmente uma fria reserva para com a gente comum, só pelo temor de diminuir-se com essa aproximação.

É por isso que a anarquia só existe nos sonhos dos homens de bem. Liberdade. Igualdade. Fraternidade.


Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges - Professor, Servidor Público Municipal e Anarquista

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