O nosso corpo precisa de combustível, mas é flex. Nossas células utilizam-se de diferentes tipos de combustível, mas um deles é indispensável: a glicose, um tipo comum de açúcar. Sem glicose, e também o oxigênio, não haverá geração de energia para o funcionamento do organismo. O oxigênio obtemos da respiração, via pulmão, e a glicose da alimentação, via intestino. A glicose e o oxigênio promovem a formação do ATP, a nossa unidade de energia no metabolismo.
Sem a glicose não tem como nossas células funcionarem. Isto é tão importante que existe uma "chave bioquímica" que promove e controla a entrada da glicose dentro das células conhecida como insulina. Constantemente disponibilizada no sangue, a insulina permite que células controlem a entrada da glicose no seu interior de acordo com a necessidade. A insulina é produzida no pâncreas, uma glândula localizada logo abaixo e atrás do estômago na qual também são produzidos outras substâncias que circulam no sangue e recebem o nome de hormônios.
O pâncreas pode ser dividido funcionalmente em duas partes distintas. A primeira produz poderosas enzimas para a digestão de nossos alimentos no intestino e no conjunto formam o suco pancreático. As enzimas coletadas em pequenos tubos desembocam em um ducto para o intestino e participam da quebra de nossos alimentos. Esta parte do pâncreas é exócrina pois secreta seus produtos para fora dos tecidos na superfície intestinal.
Na outra parte do pâncreas, as células organizadas em ilhotas produzem substâncias químicas jogadas diretamente nos vasos e atingem todas as células rapidamente, pois o sangue a distribui. Estas ilhotas de Langerhans caracteriza a parte endócrina. O pâncreas libera também o glucagon, um hormônio que aumenta o nível de açúcar no sangue pois diminui a utilização de glicose pelas células, o contrário da insulina.
Nas famílias afetadas as pessoas herdam genes que podem resultar na gradativa auto-destruição das células produtoras da insulina. Podem, mas não necessariamente, pois a manifestação clínica destes genes dependem da interação com fatores ambientais relacionados a estilo de vida como estresse, sedentarismo, nutrição e obesidade. Este tipo de transmissão chama-se hereditariedade multifatorial. Em determinado momento da vida as células produtoras de insulina são encaradas como estranhas e destruídas por auto-imunidade pelo próprio organismo. Tem-se glicose no sangue, mas sem insulina as moléculas não entram na célula e caracteriza-se o diabete melito.
Alguns membros não apresentam o diabete melito na vida, apesar de ter genes herdados dos pais pois evitam a interação com os fatores ambientais mencionados. Existem dois tipos principais de diabete melito: I e II. O tipo I ocorre mais em jovens e tipo II principalmente em pessoas com idade superior a 40 anos.
No dia a dia as células precisam de energia, o pâncreas aumenta a insulina no sangue e a glicose é consumida. Com a glicose diminuída o organismo tem a fome para repor ou retira precursores das reservas nos tecidos como a gordura. O diabético chega a tomar várias injeções diárias de insulina, mas novas tecnologias anunciam a criação de sensores subcutâneos do nível de glicose no sangue. Quando detectarem nível baixo, liberam ondas de radiofreqüência para um dispositivo aderido à pele que introduz insulina na quantidade necessária para promover um nível adequado de glicose, sem que o paciente perceba. Como um verdadeiro marca-passo cardíaco, um conta-gotas automático de insulina apelidado de "pâncreas artificial".
Existe uma corrida pelo desenvolvimento do primeiro "pâncreas artificial". Nos EUA em 11 adultos houve um bom controle de açúcar no sangue, sem hipoglicemia, mesmo depois de consumirem três refeições ricas em carboidratos. Para Steven Russell e outros pesquisadores foi o primeiro pâncreas artificial que usou tanto insulina quanto glucagon no Hospital Geral de Massachusetts em Boston como descrito no Science Translational Medicine.
Os pesquisadores na Universidade de Cambridge testaram um outro tipo de aparelho em 24 pacientes hospitalizados e afirmaram que está pronto para ser utilizado por diabéticos em casa com seus resultados publicados no British Medical Journal. Para alguns ele chega ao mercado em 3 a 4 anos, um prazo longo demais, mas provavelmente antes disto já esteja sendo comercializado!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br