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Socialism is boring!

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Em meu artigo "História e transformação", publicado no JC há duas semanas, provoquei a ira de um estudante de jornalismo, quando me referi à história da União Soviética. Apenas para exemplificar que não se deve entender a história com paixões rasgadas e opiniões fundamentalmente pessoais, escrevi o seguinte: "O pressuposto de que a classe empresarial não concorda com as ideias marxistas não impede que os que pertencem a essa classe compreendam historicamente os benefícios e as contradições do socialismo na URSS."

Para desenvolver seu raciocínio na "Tribuna do leitor", dias depois, o estudante se escorou nos pensamentos de Hanna Arendt e no obscuro Michael Oakeshott, descrito (na Wikipédia mesmo, porque aqui no D?Incao não havia quem o conhecesse) como um dos pensadores mais conservadores do século XX. Acredito que Hanna Arendt, em "As Origens do Totalitarismo", estava se referindo ao stalinismo e não ao marxismo científico. Mesmo assim, tenho que ressaltar que o estudante fez uma leitura parcial do texto. Onde estava escrito "os benefícios e as contradições do socialismo na URSS", ele só conseguiu ler "benefícios".

Bom... que eu me lembre, apesar de ter cursado história na Universidade Federal do Rio Grande e de ter me formado em jornalismo pela Unesp de Bauru - duas instituições onde o pensamento socialista parece ter sobrevivido ao "teste do tempo" (palavras do estudante) -, nunca levantei bandeira alguma a favor do marxismo. Minha bandeira é uma História livre da manipulação pura e simples dos vencedores ou pseudo-vencedores.

Pelo que sei, a revolução de 1917 derrubou a família Romanov e seu poder absoluto de 400 anos na Rússia. Naquele momento, a Rússia era um país semi-feudal, com 80% de sua população vivendo no campo e analfabeta. Es-se desenho social impedia que os próprios comunistas russos acreditassem que tomariam o poder com a queda da monarquia. Como fazer a revolução dos operários contra os donos das indústrias, em um país sem operários e sem indústrias? Mas o poder caiu no colo deles em outubro do mesmo ano, pois os sociais-democratas do governo provisório não conseguiram garantir a ordem entre as inúmeras forças e interesses russos. Certamente, nem mesmo o estudante de jornalismo ignora que a União Soviética se tornou, a partir disso, uma potência mundial. O projeto educacional implementado pelos soviéticos foi responsável pela alfabetização de 98% da população e pela formação de uma elite científica disputada a tapa pelos países ocidentais.

Mesmo com o boicote e a sabotagem perpétua desses países ocidentais, os soviéticos saíram do feudalismo e conseguiram levar o primeiro homem ao espaço, apenas 44 anos depois da queda do Czar Nicolau II. Nesse meio tempo, tornaram-se também uma potência nos esportes e venceram os alemães na Segunda Guerra Mundial. Sem a participação da União Soviética na guerra, os nazistas dominariam a Europa hoje - e, seguindo os planos de Hitler, o Brasil seria a área de serviço dos argentinos.

Tudo isso foi mérito do socialismo, mas teve um custo humano extremamente alto, que eu não gostaria de endossar. Os assassinatos, o gulags e os expurgos citados na carta do estudante ocorreram sob as ordens de Stálin, que assumiu uma postura ditatorial e descaracterizou a natureza participativa e de-mocrática dos sovietes.

Muita gente defende que o marxismo nun-ca foi aplicado devidamente, nem na URSS. Pessoalmente, não sei se o socialismo seria o melhor modelo econômico e social para o mundo de hoje. Tenho certeza, porém, que este modelo em que vivemos está aquém das necessidades legítimas da totalidade dos seres humanos e, por isso, deve ser superado.

Talvez o homem ainda não esteja preparado para uma sociedade na qual o conforto material e espiritual básico seja estendido a todas as pessoas. Pois isso garantiria segurança, pleno emprego, educação, esporte, saúde, lazer, férias... mas não permitiria a possibilidade de acúmulo material privado. Essa barreira impede o homem de se destacar na sociedade através da demonstração de posses materiais e de explorar o trabalho de outros seres humanos. E para a grande maioria das pessoas, infelizmente, esse seria um mundo muito chato.


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor e colaborador de Opinião

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