Baseado em uma apresentação de slides da Internet. Um garoto de onze anos tinha o hábito de ir pescar no cais próximo ao chalé da família junto com seu pai. A temporada de pesca só começaria no dia seguinte, mas pai e filho saíram naquele fim de tarde para pegar apenas alguns peixes cuja captura estava liberada. O menino se preparou e começou a praticar arremessos, até que o caniço vergou e ele soube que havia algo enorme do outro lado da linha.
Seu pai olhava com admiração, enquanto o garoto habilmente erguia o peixe da água. Era o maior que já tinha visto, porém sua pesca só era permitida na temporada. O pai acendeu um fósforo, olhando para o relógio. Eram pouco mais de dez da noite, portanto ainda faltavam quase duas horas para a abertura da temporada. Em seguida, olhou para o peixe e depois para o menino, dizendo que precisavam devolvê-lo.
- Mas, papai - reclamou o menino.
- Vai aparecer outro, insistiu o pai.
- Não tão grande quanto este, choramingou a criança.
O garoto olhou à volta do lago. Não havia ninguém à vista. Voltou novamente o olhar suplicante para o pai. Mesmo sem ninguém por perto, sabia, pela firmeza em sua voz, que a decisão era inegociável. Devagar, tirou o anzol da boca do enorme peixe e o devolveu à água escura. Naquele momento, o menino teve certeza de que jamais pegaria um peixe tão grande como aquele.
Sua intuição estava
correta. Nunca mais conseguiu pescar um peixe tão maravilhoso como aquele. Porém, sempre vê o mesmo peixe todas as vezes que se depara com uma questão ética.
Naquela noite ele aprendeu uma lição, a mais valiosa de sua vida: a ética é simplesmente uma questão de certo e errado. Agir eticamente é fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está nos observando. Essa conduta reta só é possível quando, desde criança, se aprendeu a devolver o peixe à água.
A ética se ocupa com a reflexão a respeito dos fundamentos da vida moral. Esta, por sua vez, estabelece regras que determinam o comportamento dos indivíduos em sociedade.
A questão da ética na conduta, portanto, permeia nossa vida em todos os momentos. Em tempos de "salve-se quem puder", somos constantemente bombardeados pela proposta de "levar vantagem em tudo", de "nos dar bem", mesmo que isso implique um total e absoluto espírito destrutivo em relação ao mundo circundante e ao próprio eu.
É preciso ter cuidado com a livre escolha. Temos ridicularizado os valores estabelecidos desde há muito pelos nossos ancestrais e a isso chamamos de obsoleto e ultrapassado. É hora de lançar uma nova luz sobre o esquecimento, fincar nossas raízes no solo dos valores duradouros da vida, resgatar a ética de Sócrates, Platão e Aristóteles, que norteou a vida daqueles que vieram antes de nós.
A resposta de Platão à necessidade de se resgatar o velho sentido da Ética, da Justiça e da Moral, perdido durante o período de crescimento de Atenas - contaminado pela hipocrisia - é a "volta a uma sociedade mais simples". Não uma volta ao passado, mas a uma utopia na qual os velhos valores, renovados a partir das indagações e críticas de Sócrates, possam orientar uma sociedade estável.
Séculos depois, o desafio é não apenas resgatar, mas potencializar essa resposta, sob pena de perdermos nosso rumo no niilismo, na redução ao nada, no aniquilamento. Este ponto de vista considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Agir eticamente é encontrar o equilíbrio, o nosso eixo, num mundo de inconsistências. É nos livrarmos das algemas do ego e da concentração em nós mesmos. Esta é a ética para a vida, a mesma que deve ser um idioma próprio e universal na textura da vida e nosso legado aos nossos meninos, ensinando-os a devolver - sempre e incondicionalmente - o peixe à água.
Marta Helena Meireles de Resende - 2.º ano de serviço social