Brasília - A horas do início previsto para sua votação no plenário da Câmara, o Código Florestal continuava empacado.
O governo se irritou mais uma vez com a proposta de "acordo possível" apresentada pelo relator, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e partidos da base aliada pediam adiamento da discussão.
"O texto ainda está distante do que o governo quer", disse a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente). As negociações continuavam até o final da noite de ontem.
Rebelo esteve reunido até o início da noite com os ministros Antônio Palocci (Casa Civil) e Luís Sérgio (Relações Institucionais). Na saída, limitou-se a dizer que "houve mais uma prova do vestido da noiva, que necessita de mais um ajuste".
Por trás da aparente tranquilidade das declarações de parte a parte se escondia uma verdadeira guerra.
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), que se elegeu para a presidência da Casa com votos da bancada ruralista, manteve a promessa de abrir a discussão do projeto do código e pediu a votação do regime de urgência para sua aprovação ontem.
Ele defendeu o texto de Rebelo anteontem, dizendo que "não é possível chegar a um consenso absoluto".
Ruralistas ameaçavam votar o texto original de Rebelo, aprovado no ano passado numa comissão especial da Câmara (e têm votos para isso no plenário). Seria a primeira grande derrota da presidente Dilma Rousseff no Congresso Nacional.
O governo, por sua vez, manobrava para evitar que o relatório de Rebelo fosse lido no plenário numa sessão que começaria às 20h30. Isso daria mais tempo para negociar.
O líder da bancada ambientalista na Câmara, Zequinha Sarney (PV-MA), disse que seu partido tentaria obstruir a votação do regime de urgência. PSB, PSOL e PV haviam pedido adiamento da votação por uma semana. Para conseguirem a obstrução, precisavam de apoio do PT. O partido ainda não havia definido sua estratégia até o momento.
"100% em desacordo"
Palocci se disse "frustrado" e "decepcionado" com alterações de última hora de Rebelo no relatório.
Em reunião com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, pela manhã de ontem, Palocci disse que "há 100% de desacordo" com o texto. "Às vésperas de uma votação, ter 95% de acordo é igual a ter 100% de desacordo. Ou se tem um acordo completo ou não se tem", disse Palocci a Marina durante a reunião, segundo a reportagem apurou. A avaliação na Casa Civil, que vem capitaneando a discussão sobre o código dentro do governo, é de que todo o acordo costurado após uma sequência de reuniões de representantes do governo e líderes de partidos da base aliada com Rebelo acabou não sendo cumprido.
"Em cima desse texto, o ministro Palocci disse que não vai trabalhar para que haja uma aprovação", disse Marina após a reunião, da qual também participaram representantes de ONGs ambientalistas como Greenpeace e SOS Mata Atlântica.
"Todo mundo aqui virou a noite tentando entender o texto. Temos 200 deputados novos, que não participaram dessa discussão. Dá para entender esse texto de hoje para amanhã? Impossível."