Rio - O presidente da Associação dos Familiares das Vítimas do Voo 447, Nelson Faria Marinho, diz que a Air France "só começou a resgatar os corpos devido à pressão", mas considera "um alívio" a operação para recolher os corpos encontrados no oceano Atlântico.
Uma equipe de resgate conseguiu recuperar o primeiro corpo dos destroços na manhã de ontem. A polícia francesa informou que o corpo, içado à superfície após permanecer quase dois anos a uma profundidade de 3.900 metros, está em estado avançado de putrefação. Ele ainda estava preso ao assento pelo cinto de segurança. "É preciso finalizar a vida, encerrar esse ciclo que, sem os corpos, fica aberto. Tem que haver um lugar, um túmulo, para que as famílias prestem homenagem à pessoa", disse.
Segundo Marinho, só duas famílias, uma brasileira e outra alemã, manifestaram a ele o desejo de não receber os corpos de seus parentes mortos. "No Brasil, encontrar o corpo resolve outro aspecto importante, relativo à lei. Sem corpo, existe muita burocracia para oficializar a morte presumida. Isso demora de seis meses a dois anos. Com o corpo, a família consegue receber um seguro de vida, por exemplo, e resolver outras pendências legais", afirma.
Segundo a polícia francesa, é possível que os exames não permitam a identificação dos corpos, devido à deterioração. Se essa impossibilidade for constatada em relação ao primeiro corpo, já recolhido, o resgate dos demais pode ser cancelado.
Marinho considera impossível que os exames não consigam identificar os corpos.
Resgate divide opinião de parentes
Rio - O resgate anunciado ontem, pela polícia francesa, do primeiro corpo dos destroços do voo AF-447 da Air France divide opiniões entre os parentes das vítimas brasileiras. Quase dois anos depois do acidente, que deixou 228 mortos, a notícia traz conforto para uns e indignação para outros, que preferiam que os corpos fossem "deixados em paz".
Em 2009, logo após a queda do avião, 50 corpos foram resgatados, e desde então nenhum tinha sido encontrado. Para o presidente da Associação de Familiares de Vítimas do Voo AF-447, Nelson Faria Marinho, a localização de um novo corpo e a promessa de que as buscas vão continuar representam a chance de encerrar um ciclo. "Muitas famílias ficaram frustradas, e agora finalmente vão poder ter um enterro."
Marinho, pai de uma das vítimas, conta que a notícia também é importante do ponto de vista legal, já que os parentes vão conseguir a certidão de óbito. "É o pontapé inicial para indenizações, aposentadoria, movimentações bancárias. Para conseguir a certidão de morte presumida, leva-se de seis meses a dois anos. Até hoje não consegui a do meu filho", disse.
O presidente da associação criticou o envio dos corpos a França, dizendo que isso contraria a vontade dos parentes brasileiros. "Os primeiros 50, quando foram encontrados, vieram para o Brasil. Pedimos que estes viessem também, mas não fomos atendidos", afirmou.