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Falcões e governo

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

As dúvidas sobre a natureza do processo inflacionário não existem apenas no Brasil, mas em graus variáveis, em todas as economias do mundo, hoje. Aqui, temos um desafio complicado, pois não é um problema produzido somente por um desequilíbrio entre a oferta global de bens e serviços e a demanda total de bens e serviços. Estabeleceu-se uma discussão entre a equipe econômica e os "falcões" do mercado financeiro que sugerem uma dramática política de choque fiscal e monetário para trazer a taxa de inflação à meta de 4,5% no fim de 2011.

Para o governo, e corretamente, há tantas incertezas sobre como funciona a nossa economia e sobre as "teorias" simplistas que ten-tam explicá-la que não convêm tomar os riscos de um ajuste dramático pelo menos por dois motivos: primeiro é que quando olhamos a situação fiscal do Brasil (mesmo depois de alguns pecados veniais de 2010 devido à necessidade de sustentar a recuperação do PIB e do empego que haviam caído com a crise de 2009) ela compara-se muito bem com a dos países do resto do mundo que, em geral, não tiveram o nosso sucesso. O ajuste fiscal proposto pelo governo dá todos os sinais (até agora) de que será cumprido e é suficiente.

O segundo motivo é que nem os "falcões", nem ninguém dispõe de conhecimento necessário (e não há suporte empírico razoável) para estimar qual a queda do PIB e do emprego a que conduziria seu programa. Tais "falcões" são apenas portadores de uma religião que tentam vender como ciência. Juram sob sua própria Bíblia (o mercado livre e desregulado) que o PIB cairia para 3% em 2011, a inflação voltaria à meta já em dezembro e depois... cresceríamos "com equilíbrio" 4,5% ao ano até o fim dos tempos.

Há controvérsia! O que eles fingem não saber é que mesmo que sua "teoria" fosse correta, o que não é o caso, é impossível "calibrar" o choque proposto para obter o re-sultado que esperam. É possível que em lugar de crescimento de 3% do PIB, tivéssemos menos 1%, em 2011, voltando à recessão. Depois de amargá-la precisaríamos de 2 ou 3 anos para voltar aos 4% que provavelmente teremos em 2011. O alongamento do prazo de ajuste proposto pela autoridade monetária para voltarmos à meta de inflação de 4,5% parece ser o caminho mais seguro e com menor custo para a sociedade.

E não se trata de transigir com o combate à inflação. É preciso deixar a discussão prosseguir, porque em minha opinião os efeitos das políticas que estão sendo postas em prática vão acabar mostrando que as medidas macro prudenciais são de uma certa forma substitutas dos aumentos dos juros.  


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento

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