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Na região central, cracolândia assusta

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 6 min

Houve um tempo em que a denominação "cracolândia" remetia ao centro velho de São Paulo, especificamente à região da Luz, onde viciados se amontoam para comprar e consumir crack sem qualquer cerimônia. Mas isso faz parte do passado. Não que a famigerada boca do lixo paulistana tenha mudado para melhor. Pelo contrário. Os tentáculos do crack é que se expandiram. Com a mesma voracidade com que o entorpecente vicia e destroi, as áreas de "livre utilização" da droga ganharam, proporções à parte, suas versões interioranas. Bauru não foge à sina

Assim como nas capitais, a meca dos viciados na cidade é a região mais degradada do Centro, ao lado da não menos abandonada estrada de ferro, suas construções e composições servindo de abrigo à decadência humana.

Os trilhos e dormentes da extinta Fepasa testemunham o flagelo de jovens, muitos recém-saídos da infância, adultos e até idosos que, seja dia ou noite, fumam as pedras compradas sem qualquer embaraço na própria redondeza. Alguns senhores, na faixa dos 60 anos, segundo afirma um usuário que frequenta o local, chegam a se drogar ao lado de prostitutas não menos viciadas, ao mesmo tempo em que fazem programas, antes ou depois de fumar crack.

Na sombra dos viadutos Treze de Maio e JK, dezenas deles se aglomeram entre os pilares de concreto, principalmente nos finais de semana, para aspirarem fumaça tóxica e alucinógena lado a lado, muitas vezes dividindo a mesma pedra e cachimbos improvisados. No chão, o lixo comum às áreas tipicamente degradadas se mistura com embalagens vazias geralmente utilizadas como cachimbos, jogadas ao lado do chamuscado resultante da queima de colchões.

Não que os usuários de crack tenham protagonizado qualquer tipo de rebelião. O fogo, no caso, é a ferramenta de alguns moradores que, para se verem livre das ameaças trazidas na esteira do vício, queimam os colchões velhos e sujos que servem de abrigo aos usuários. Em vão, os dias passam e os pedaços de espuma voltam a se misturar à sujeira debaixo do viaduto. "É o único jeito. Dias atrás limpei e queimei tudo, para os noias não voltarem mais", comenta um morador da região, que pediu para ter o nome preservado. O maior medo dele é a influência negativa sobre os netos, que também vivem por ali. "A gente tem muita preocupação. A maior delas é das crianças serem levadas para esse caminho", teme.

A constante agitação pela presença de usuários de drogas, tráfico e incursões policiais à região, principalmente na Vila Paulista - que apesar de degradada, congrega famílias moradoras de residências destinadas aos ferroviários da Fepasa, nos tempos em que a estada de ferro era ativa -, não é o maior incômodo aos habitantes, boa parte ferroviários aposentados e familiares. "É comum a gente escutar até tiros. Mas é de problemas, cobranças de dívidas, entre eles", minimiza uma outra habitante. "Muitas vezes eles passam aqui em frente e pedem perdão por ?estar na noia?.

Informalmente alguns habitantes afirmam sentir relativa segurança. O próprio sistema entre o tráfico e usuários teria um código. Apesar do uso e comércio do crack no local, assaltos ou furtos contra moradores são banidos por uma liderança invisível, como a degradação para os olhos de quem dirige sobre os viadutos entre Centro e Bela Vista. "Segundo o ?cabeça? deles, é proibido mexer com a vizinhança."


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Triângulo da pedra registra até fila


"Bauru começa da Duque de Caxias para cima". O protesto, do aposentado Edson Rezende, morador do largo da rua Júlio Prestes, região que abriga a famosa Feira do Rolo, evidencia o sentimento de quem vive por ali. "É muita sujeira na rua, vandalismo, deprimente. Sou de Bauru, mas estou com saudade de Campinas, onde morava antes de me aposentar", diz o morador, que apesar do descontentamento, já se acostumou à presença dos viciados nos degraus que dão acesso ao antigo galpão ferroviário, da mesma forma com que outras pessoas que trabalham na região. "Tem um cidadão mulato, alto, sempre aí sentado com uma latinha (cachimbo improvisado)", descreve Mário da Paz, presidente da Associação dos Aposentados, localizada em frente à praça da rua Júlio Prestes.

A metros dali, no entanto, outro tipo de feira incomoda comerciantes e moradores. É no cruzamento das ruas Antônio Alves e Júlio Prestes, onde rolam as pedras das mãos de traficantes direto para as mãos dos viciados. Há quem diga que muitos deles chegam a fazer fila para comprar a droga e correr para debaixo da ponte ou simplesmente sentar no degrau da antiga construção ferroviária. "A polícia deveria passar mais aqui", acrescenta Rezende.

E passa, garantem os próprios policiais. O "Triângulo da Pedra", ou Cracolândia, área compreendida entre a Nações Unidas e ponte JK, prolongada até o viaduto inacabado, abaixo da rua Presidente Kennedy até a linha férrea da "falecida" Paulista, é constantemente visitado pelas polícias Civil e Militar. No entanto, lamentam seus respectivos chefes, é como "enxugar gelo".

Os traficantes dificilmente permanecem no local, predominantemente abrigo de usuários que, detidos com poucas porções, rapidamente são liberados pela própria legislação e, sem ter para onde correr, voltam para o mesmo lugar, até mesmo instantes depois das abordagens.

"Não há imputabilidade", observa o delegado Silberto Sevilha Martins, titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise). "As cenas são degradantes, até porque pouca gente passa por ali", admite o policial. "Mas a Polícia não pode ser massacrada. Fazemos inúmeras operações no local. Mas o que acontece por ali não podemos chamar nem de microtráfico. É a degradação humana", conceitua.

A inexistência de formas de repressão ao uso, de acordo com o delegado, vai de encontro à necessidade de coibir o problema pela raiz, segundo ele: educação. "A polícia toma providências mas não vai acabar com o uso. Acabamos com a Cracolândia ali, ela vai para outro lugar", aponta o delegado, citando também vias de tráfico alternativas, incluindo prostitutas que fazem ponto na rua Ezequiel Ramos, proximidades da Nações Unidas. "A questão é de saúde pública, mas precisamos mesmo é fazer com que a juventude não entre nessa corrente", atribui. Além das mulheres de programa, mendigos também são recrutados para o tráfico, informam fontes policiais.

A Polícia Militar também assegura cumprir seu papel. O tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º Batalhão da PM em Bauru, cita operações constantes de diversos regimentos, incluindo as Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e Cavalaria. Mas ele também admite que medidas policiais são sazonais, no caso da cracolândia. "Fazemos operações e apreensões. Mas o ideal, seria atacar o cerne do problema, com investimentos tanto em combate aos grandes laboratórios da droga como também em campanhas de conscientização", propõe. "Não falo em simplesmente distribuir panfletos, mas uma grande ação até mesmo publicitária. Veja o cigarro: hoje, alguém que fuma em local fechado é rapidamente repreendido", relaciona.

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