Na década de 1990, lembra o na época assistente e hoje titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), Silberto Sevilha Martins, havia um grande temor pela chegada do crack, até então concentrado nas capitais. Hoje, o cenário é de semelhante preocupação e incógnita: como (e quando) o oxi, droga ainda mais devastadora que o crack, chegará na cidade?
Pior. Junto ao temor, a suspeita: a droga com poder maior de destruição e vício que o crack já estaria em circulação, mesmo que ainda discreta, entre traficantes e viciados. A tese é levantada pela Polícia Militar, aponta o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º Batalhão da PM em Bauru. "A identificação fica difícil, no caso do usuário, já que ele inalou a droga no momento da abordagem. Mas temos notícias da droga nova em Bauru desde o ano passado", revela o oficial.
Para o titular da Dise, a chegada, ou consolidação, das pedras de oxi, vendidas por R$ 2,00 - o crack é comercializado na faixa de R$ 10,00, alguns viciados dizem comprar por R$ 5,00 em Bauru -, atualmente comum na cracolândia da região central de São Paulo, depende apenas do andar do relógio.
O baixo preço aliado ao potencial alucinógeno, por mera questão de tempo, fará com que as pedras ainda mais nocivas caiam na preferência dos usuários, acredita e lamenta o policial. "É uma contagem regressiva", aponta o delegado.
Atualmente, dependentes chegam a dividir as pedras de crack. Com a droga mais barata, mesmo com maior poder de destruição, essas pessoas rapidamente migrariam para o "primo pobre" do crack. "Já dá para prever que será algo complicado", acredita ele, antevendo maior trabalho tanto policial quanto da saúde pública, já que a droga causa efeitos imediatos como vômito e diarreia, instantâneos. "É um subproduto da cocaína que contém substâncias ainda piores. Vai gerar uma legião de pessoas com doenças e de uma forma mais brutal. É igual a uma bomba nuclear. Vai gerar uma reação em cadeia", antevê o tenente-coronel da PM.
Feitas de pasta base de cocaína com acréscimo de cal virgem, querosene ou até mesmo gasolina - mais baratos do que o bicarbonato de sódio e amoníaco encontrados no crack - o oxi, conforme especialistas, vicia nas primeiras tragadas. No entanto, o estrago é proporcional ao poder viciante, justamente pelas substâncias corrosivas inaladas.
As suspeitas de que o oxi já estaria em Bauru ganham mais força pela semelhança visual da pedra com o crack. Muitas apreensões da nova droga em São Paulo, de acordo com a polícia, seriam registradas como o entorpecente antigo, justamente por serem parecidos.
"No exame do Instituto de Criminalística, dá positivo para cocaína. Como é em pedra, fica caracterizado como crack, mas também pode ser oxi", afirma o diretor da Divisão de Educação e Prevenção do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil (Denarc), Reinaldo Correa, ao jornal O Estado de S.Paulo.
Devastador
Assim como o próprio crack é muito mais devastador do que a cocaína, o oxi - que proporciona alucinações até por meio das fezes e vômito de quem usa, afirmam especialistas - é uma ameaça real. "Vai acontecer igual ao crack. Nosso sistema de saúde está despreparado", alerta o psiquiatra Sérgio Yutaka Sato, especialista no tratamento de dependentes químicos e integrante do Conselho Municipal Anti-Drogas. Atualmente, estima o especialista, 60% de seus pacientes tentam se livrar do crack. Pouco mais da metade tem sucesso na luta contra a abstinência. "Essa droga vai pegar mais gente do que o crack já pegou", lamenta.
No Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) ainda não há registro de usuários de oxi, mas a nova droga já causa apreensão. "Ainda não há nenhum relato, mas preocupa pela composição corrrosiva", adianta Valéria Moron Perri, chefe do ambulatório.
Segundo ela, apesar da droga ainda não ter chegado, ao menos em registros oficiais, o tratamento, a princípio, seria semelhante ao procedimento de desintoxicação do crack. "A abordagem medicamentosa poderá ser diferente", detalha. Apesar da apreensão, ela acredita que haverá condições para continuar atendendo a demanda.
"Temos condições e apoio tanto do Hospital Manoel de Abreu quanto do Tereza Perlatti (Jaú), além das comunidades terapêuticas conveniadas à Secretaria Municipal da Saúde. Nossa rede ainda engatinha, mas já melhorou muito", elogia. Não há, ao menos no serviço público, trabalho específico com os dependentes sob os viadutos.