O acúmulo dos anos traz muitos beneficíos como amadurecimento, experiência de vida, autoconhecimento e estabilidade econômica. Mas envelhecer também gera perdas. Com a queda da taxa hormonal surge a flacidez, aumento de peso, perda de músculos, e obviamente, a autoestima de homens e mulheres fica prejudicada. É exatamente por esses motivos que, embora natural e inevitável, o envelhecimento não é um processo aceito com naturalidade pelos seres humanos.
Mas será possível parar o tempo e retardar o envelhecimento? É em busca desse sonho que a medicina e a estética se unem e promovem avanços com resultados consideráveis. Técnicas capazes de apagar as manchas senis, diminuir flacidez, erguer aqui, preencher ali e corrigir acolá já são possíveis.
Contudo, em busca da eterna juventude, há quem abuse não somente das intervenções cirúrgicas, mas também do uso de "pseudomedicamentos" que prometem milagres sem comprovação científica, como é o caso do hormônio do crescimento GH (do inglês growth hormone), visto por muitos como o "elixir da juventude".
O GH é uma proteína secretada naturalmente pela glândula hipófise, uma estrutura do tamanho de uma ervilha localizada na base do cérebro, cuja principal ação é a promoção do crescimento na infância. Porém, por ter ação anabólica, que atua ao longo da vida na manutenção de órgãos e sistemas, é base para estudos sobre o seu potencial terapêutico em situações clínicas como a osteoporose e diversas doenças causadas pela degradação do organismo, além da somatopausa - declínio fisiológico do próprio GH, promovido pelo envelhecimento.
"No entanto, paralelo a essas potenciais aplicações ainda em teste, tem ocorrido uma proliferação de más indicações e uso abusivo do GH por atletas e o surgimento de uma lucrativa indústria "antienvelhecimento" que vende a ideia do GH como elixir da juventude. Contudo, até o momento não existe nenhuma evidência para o uso do hormônio do crescimento nesse sentido", afirma Ana Gabriela Vieira Martins, médica endocrinologista e diretora sócio-cultural da Associação Paulista de Medicina Bauru (APM).
Os possíveis efeitos benéficos do uso do GH para retardar os efeitos da idade - vale ressaltar que sem comprovação científica - seriam na composição corporal com o aumento da massa muscular, aumento da massa óssea e redução da gordura. Porém, não se mostrou até o momento que isso se reflita no aumento de força muscular ou da capacidade aeróbica.
Já os principais efeitos adversos notados são, principalmente, problemas nas articulações, inchaço, aumento do risco de diabetes, pressão alta e aumento do risco de surgimento de tumores.
Falso elixir
Atualmente, há uma grande angústia e ansiedade relacionadas ao envelhecimento e seus efeitos no corpo e na mente. Associado a essa angústia, existe ainda o excessivo culto ao corpo e a busca frenética pela magreza e, como resultado dessa combinação, desponta a esperança em descobrir uma fórmula mágica capaz de parar os efeitos do tempo.
"Apesar de poder proporcionar o aumento da massa muscular, massa óssea e a redução da gordura corporal, sabemos que o declínio do GH pode representar um processo adaptativo benéfico ao organismo, no sentido de proteger o idoso da crescente susceptibilidade a doenças como diabetes, hipertensão arterial e tumores", alerta a endocrinologista.
Já para a geriatra Mirian Tobias, uma questão ainda discutível é se a queda do GH, com o passar dos anos, seria um evento protetor do envelhecimento normal ou uma condição que sinalize a necessidade de sua reposição. "Ainda não está estabelecida a segurança do uso de GH a longo prazo, mas há relatos de maior incidência de tumores, principalmente mama e próstata, e de hipertensão intracraniana benigna em indivíduos tratados".
No caso do uso para finalidade emagrecedora, pode-se extrapolar os efeitos benéficos. Em adultos saudáveis e que produzem normalmente o GH, o aumento da substância no organismo pode acarretar diversos efeitos colaterais, como inchaço, dores articulares, alterações fisionômicas, além de aumento da glicose e até da pressão arterial.
?Busco por beleza, mas com saúde e
qualidade de vida em primeiro lugar?
Enquanto tudo tem sido válido para os mais ávidos na busca por retardar o envelhecimento, uma rotina regrada com academia, dieta balanceada e alguns tratamentos estéticos tem garantido bons resultados para a gerente financeira Edley Svizzero Boni, de 51anos.
A receita de beleza de Edley não tem como ingredientes o uso de medicamentos não indicados ou intervenções cirúrgicas, mas ela garante que é possível manter-se bem disposta e com a autoestima em dia se o objetivo for a saúde e a qualidade de vida. "Há um tempo descobri um hipertireoidismo. Engordei e tive problemas de colesterol devido a isso. Então, fui ao médico e passei a fazer ginástica. Gostei e não parei mais com a atividade física. Acredito que é preciso cuidar do corpo, mente e espírito para ser feliz. Tudo está englobado. Não dá para se preocupar apenas com a beleza", garante.
Vaidosa como grande parte das mulheres, a gerente financeira confessa que, quando um pneuzinho aparece, lá vem a preocupação. "Depois de uma certa idade, nosso metabolismo fica mais lento mesmo e o corpo, mais propenso a engordar e ficar flácido. Por isso a importância de estar atenta aos cuidados com a saúde e também estética".
Em relação aos tratamentos com hormônios não indicados como o do crescimento, por exemplo, ela quer é manter distância para não arriscar a saúde. Por outro lado, assim como muitos homens e mulheres que primam pela beleza acompanhada de saúde, Edley não abre mão de acompanhamento com nutricionista, dermatologista e clínicas estéticas. Quanto à cirurgias plásticas, não é contra, porém, um certo medo de encarar o bisturi não permite as correções, talvez até desejadas.
"Prefiro mesmo é malhar. Faço sessões de laser para tirar manchinas do rosto, colo e mãos anualmente e passo milhões de cremes receitados por minha dermatologista, que até virou amiga da família", diz, bem humorada.
Aprovação do GH ainda é restrita
Até o momento, as únicas indicações aprovadas pela medicina para o uso do hormônio do crescimento GH (do inglês growth hormone) são para crianças com deficiência dessa substância, síndrome de Turner, insuficiência renal, baixa estatura idiopática e as que nascem pequenas para a idade gestacional e não recuperaram o desenvolvimento após o nascimento. Para os adultos, o GH somente é liberado para aqueles com deficiência deste hormônio. E nos Estados Unidos, pacientes com HIV/aids em estado de caquexia também podem fazer o tratamento hormonal.
Mesmo sendo proibido para fins meramente estéticos, o GH tem sido usado por pessoas da alta sociedade e celebridades com o sonho de se manterem jovens, magras e bonitas por mais tempo. Além de perigoso, o tratamento custa caro. O valor gira em torno dos US$ 10 mil a US$ 15 mil por ano.
"O que podemos afirmar é que, usado por pessoas saudáveis e sem deficiências de GH, o mesmo estará em doses altas no organismo, o que pode levar inclusive à diminuição da produção endógena do hormônio. Além disso, pode ocorrer, dependendo do tempo e dose usada, uma alteração facial capaz de deixar a pessoa com traços mais rudes", alerta a endocrinologista e diretora sócio-cultural da Associação Paulista de Medicina Bauru, Ana Gabriela Vieira Martins.
Outro uso indiscriminado do hormônio do crescimento é entre os jovens nas academias para ganhar massa magra. Entre as celebridades, Sylvester Stallone causou polêmica ao defender e confessar ter usado GH para ficar musculoso no filme "Rambo 4".
Assim como em relação aos seus efeitos rejuvenescedores, nenhum dado científico publicado aponta que seus efeitos anabólicos sejam capazes de melhorar o desempenho em competições ou aumentar a força muscular. "No esporte em geral, a utilização do GH é considerada ilícita, estando incluída entre as substâncias proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional", diz a geriatra Mirian Tobias.