Qual é o papel da escola na sociedade atual, sobretudo em comunidades menos favorecidas econômica, social e culturalmente? Essa reflexão, diária para os profissionais do ensino, foi ampliada na minha escola após um fato funesto. Numa cidade com altos ín-dices de violência, mais um jovem é baleado na rua. A manchete: aluno é baleado por outro na entrada da escola. Se um avião cai próximo à minha casa, eu não espero que a Infraero me responsabilize pela queda.
A Diretoria Regional de Ensino, a Secretaria de Educação, a imprensa, a polícia, a comunidade, as famílias dos alunos, o Poder Judiciário, todos fizeram o mesmo tipo de questionamento: onde a escola estava? O que fez para evitar, que providências foram tomadas? Muitos, inclusive, desconhecem o significado da palavra providência, mas isso certamente é culpa da escola. Ninguém se lembrou que a equipe escolar é tão vítima da situação quanto qualquer outro envolvido.
Assumo minhas responsabilidades, mas não posso, não quero e não admito assumir a responsabilidade alheia. A escola não pode impedir que os alunos briguem durante um feriado. Não tem condições de garantir a segurança dos alunos na rua, nem mesmo dos frequentes, quem dirá daqueles que frequentaram um dia. Não é pelas mãos da escola que um adolescente consegue uma arma. Não está ao alcance da escola evitar que isso aconteça. Não é na escola que se aprende a resolver os problemas e desentendimentos pela violência. São orientados, sim, alunos e família, a lutar por seus direitos, mas por meio do diálogo. Acontecimentos como o da última segunda-feira (25/3) deveriam servir para unir escola, comunidade e poder público na luta comum pela segurança, pelo ensino público de qualidade, por serviços de saúde dignos. A escola, no entanto, sente-se abandonada, acuada, acusada. Numa sociedade em que a equipe de TV chega antes do Samu, alguma coisa está errada (e a culpa não é do Samu, nem da TV, será da escola?). Num sistema educacional em que a direção da escola é orientada a não se manifestar (se preferir, entenda proibida), alguma coisa está errada. Numa sociedade em que o efetivo policial não é suficiente para atender à população, alguma coisa está errada.
E embora não me tenham perguntado, não tenho medo de vir trabalhar, não me sinto ameaçado perto da minha escola. Tenho orgulho de trabalhar aqui, tenho orgulho dos meus colegas, dos meus alunos. Sei que o que houve ? na rua ? foi um fato isolado, estou aqui há sete anos, portanto tenho autoridade para afirmar isso. No período noturno, sobretudo, não temos histórico de brigas no portão da escola. Há sim, principalmente à tarde, discussões adolescentes por namoricos (onde não há?), e orientamos para que não ocorra. Queremos apenas o apoio das famílias, da comunidade, das autoridades competentes estabelecidas. Não moramos perto da escola, mas fazemos nossa parte para que se torne um bairro melhor. Entretanto, nos últimos dias tem sido difícil trabalhar com a pressão que recebemos, a meu ver injusta. No mínimo exagerada.
O autor, Marco Aurélio Ribeiro, é professor e ex-aluno da E. E. Professora Nilza M. Santarém Paschoal