Economia & Negócios

Importados absorvem dois terços da alta do consumo

Tisa Moraes e Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 8 min

De brinquedos que custam centavos a maquinários que valem milhares de dólares, os produtos importados invadiram o mercado brasileiro e, no primeiro trimestre deste ano, foram responsáveis por dois terços do aumento do consumo no País. Em Bauru, esta tendência - por um lado positiva por demonstrar o crescimento do poder de compra de seus moradores - reflete de maneira negativa no setor industrial, cada vez menos competitivo diante dos baixos preços dos produtos estrangeiros.

Segundo levantamento realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o consumo aparente registrou alta de 4% no primeiro trimestre de 2011, mas a indústria nacional aproveitou apenas 35,9% desta variação sobre o primeiro trimestre de 2010, enquanto os produtos estrangeiros captaram 64,1% do mercado interno.

Os resultados - que integram os coeficientes de exportação e importação (CEI) divulgados ontem pelo Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp - apontam para o aumento do poder aquisitivo das classes C e D e para o chamado processo de desindustrialização, que também faz parte da realidade bauruense.

"Há uma perda de competitividade que vem se acentuando ao longo dos últimos 10 anos. A própria indústria se vê obrigada a importar itens para sua produção, porque esta importação, em muitos casos, barateia os custos do processo. Da mesma forma acontece com o varejo", aponta o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, Andrey Valério.

Por conta da desvalorização do dólar frente ao real, nunca foi tão fácil para a indústria comprar, por exemplo, maquinários importados da Itália e dos Estados Unidos - mais modernos que os modelos nacionais a preços abaixo dos cobrados em solo brasileiro. Da mesma forma, o varejo também se beneficia do câmbio, conforme analisa Erlon Godoy Ortega, diretor da regional Bauru da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

"Hoje, o consumo de produtos importados aumentou muito não apenas em razão do crescimento da renda do brasileiro, mas porque estes itens estão mais baratos, muitas vezes, do que o equivalente nacional. Podemos, por exemplo, encontrar vinhos fabricados em outros países a R$ 7,00 e o quilo do bacalhau a R$ 15,00, o mesmo preço de um contrafilé", observa.


Juros e tributos


Além da desvalorização do dólar frente ao real, estão entre os motivos apontados para explicar a invasão de produtos importados - com o consequente processo de desindustrialização - a política de tributação e de juros brasileira e a falta de investimentos em tecnologia industrial ao longo das últimas décadas.

"O produto chinês, por exemplo, é barato porque é feito com uma tecnologia mais aprimorada, o que reduz custos finais, além de ser submetido a uma carga tributária menor dentro da China. E a moeda chinesa não é tão valorizada, o que torna o produto daquele país muito mais barato para o resto do mundo", diz Valério.

Quando chegam ao Brasil, as mercadorias estrangeiras são ainda beneficiadas pela guerra tributária estabelecida entre alguns Estados, que disputam pela arrecadação dos impostos cobrados para a entrada destes produtos. "Alguns estados provêem uma série de facilidades para o ingresso dos importados, o que incentiva as empresas estrangeiras a exportar mais para o Brasil", acrescenta o diretor do Ciesp.

Para o economista Wagner Ismanhoto, o aumento da participação de mercadorias estrangeiras no mercado interno é resultado ainda de uma taxa de juros "absurda" que ajuda a valorizar o câmbio. "A política de juros brasileira faz com que o mundo inteiro remeta dólares para o País para explorar os mercados futuros. Com dólar sobrando, o dinheiro americano fica mais barato", analisa.

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Mais apreciados e mais acessíveis


No crescimento do consumo de importados, um dos produtos em maior destaque é o vinho. A bebida vem sendo apontada por especialistas como benéfica para a saúde se consumida em doses moderadas. Além disso, o preço de alguns importados tem caído.

É o que afirma a gerente de vendas de um estabelecimento especialista no ramo de bebidas. "Um vinho chileno que custava R$ 68,00 no ano passado sai, hoje, por cerca de R$ 49,00. Além disso, ele tem a vantagem no preço sobre um vinho nacional semelhante, que não deixa de ter qualidade, mas é menos apreciado e custa R$ 67,00", explica Rosângela Machado de Melo.

O bancário Marcos Tadeu Lenharo, 52 anos, é um apreciador de vinhos e conta que escolheu o vinho chileno para seu consumo, levando em conta as preferências do paladar e as adequações ao seu bolso. "Experimentei muitos tipos de vinho, produzidos em diversos lugares do mundo, e optei pelo chileno. Em relação aos brasileiros, não há muita diferença de preço", afirma ele, que costuma desembolsar entre R$ 18,00 e R$ 30,00 por uma garrafa.

Vendedora em uma loja de videogames e eletrônicos, Patrícia Angela Garcia Machado, 40 anos, afirma que praticamente 100% das mercadorias são importadas porque não há produção nacional das mesmas. Ela confirma o crescimento constante na busca por esses produtos e o atribui ao aumento do poder aquisitivo da população e a redução natural nos preços desses equipamentos. "Um videogame que custava R$ 2.000,00 há oito anos é vendido por R$ 399,00", pontua.

Como consumidora, Patrícia sente a tendência no crescimento dos produtos importados em diversos setores. "Outro dia fui comprar um cobertor em uma loja de rede e o de fabricação nacional era bem mais caro", ressalta.

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Coeficientes


De acordo com o estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o coeficiente de exportação do setor, que representa o volume total exportado sobre a produção, subiu 0,4 ponto percentual (de 17,1% para 17,5%) nos três primeiros meses do ano sobre o mesmo período de 2010, o que mantém o índice bem abaixo do patamar histórico para os primeiros trimestres - em torno de 21% em 2007.

Já no coeficiente de importação da indústria, o avanço de 1,7 ponto percentual nesse mesmo período - de 19,9% para 21,6% - contribuiu para sustentar o índice em nível acima da média histórica, que gira em torno de 18%.

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Compra de ?estrangeiros'
atrai várias classes sociais


Vinhos, perfumes, alimentos, roupas, veículos, maquinários para a indústria, brinquedos, bijuterias. A lista de produtos importados consumidos por bauruenses é infinita e abrange todas as classes sociais, já que podem custar de centavos a milhares de reais. Se em alguns casos os importados estão ligados a luxo e status, em outros são os objetos mais rotineiros, presentes no dia a dia.

A lista é imensa, mas muitas vezes os consumidores sequer se dão conta de que estão levando para casa produtos importados. Isso é muito comum nas lojas populares de variedades, pelo grande volume de brinquedos e produtos de decoração.

"Essa é uma coisa que passa batido. Quando venho comprar, não fico reparando se isso ou aquilo é importado ou não. Eu compro o que preciso, o que gosto ou o que acho bonito e levo a questão do preço em consideração", explica a auxiliar administrativa Eliana Rosa Silveira, 42 anos.

Segundo o gerente da loja, José Carlos Zaratine, os produtos característicos de determinados períodos do ano também são predominantemente fabricados fora do Brasil. "É o caso dos artigos de decoração natalina, que vendem muito todos os anos", garante.

Por outro lado, em outros segmentos, os produtos importados ainda são sinônimos de melhor qualidade, como no caso dos perfumes. A chef de cozinha Carla Knoll Moreira, 22 anos, conta que compra também os perfumes nacionais, mas a diferença é grande.

"As marcas nacionais estão cada vez melhores em relação ao aroma. Consequentemente, estão também mais caras. No entanto, a fixação do perfume importado é muito maior. Quando o uso, é possível senti-lo ao longo de todo o dia, o que não acontece com os nacionais", pontua.

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Desindustrialização


Conforme já divulgado pelo JC, a indústria bauruense - assim como a brasileira como um todo - atravessa um processo de desindustrialização, que vem se acentuando ao longo da última década. O fenômeno é resultado do aumento sistemático do volume de produtos manufaturados importados para abastecer o mercado interno, o que reduziu a competitividade da indústria local e nacional, prejudicando seu desempenho em termos de produção e exportação, assim como em relação à contratação de mão de obra.

Para se ter uma ideia, apenas no último ano, o volume de importações efetivadas somente pela indústria cresceu 60% em Bauru. Dos US$ 19,906 milhões adquiridos em produtos estrangeiros pelo setor no primeiro trimestre de 2010, o valor passou para US$ 32,006 no mesmo período de 2011.

Para piorar a situação, o nível de exportações caiu 9,9%. Se, de janeiro a março deste ano, foram exportados US$ 37,737 milhões, no primeiro trimestre do ano passado US$ 41,889 foram remetidos ao Exterior. Como resultado, o saldo da balança comercial variou de US$ 21,981 para pífios US$ 5,731 milhões no período.

"E não vejo uma mudança drástica neste processo nos próximos anos. Por mais que algumas medidas sejam tomadas pelo governo, os resultados serão mínimos diante da intensidade da situação que vivemos hoje", avalia o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de Bauru, Andrey Valério.

Segundo ele, algumas empresas dos setores que mais sofrem com o processo de desindustrialização, como o de metalmecânica, poderão sucumbir à crise antes mesmo de um eventual ?socorro? governamental ser posto em prática.

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