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A fita de cetim, a flor e o AR15

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Uma campanha de desarmamento supõe o extermínio total do comércio clandestino de armas, das grandes aquisições de munições, das aeronaves transpondo fronteiras carregadas de armamentos ameaçadores, ou seja, destruição total do arsenal bélico. Ora, se a campanha não for para desarmar os quadrilheiros, traficantes e criminosos a quem se pretende desarmar? O agricultor, que deverá entregar suas ferramentas de trabalho? O cortador de cana que ofertará seu facão? O caboclo e o canivete "corneta" utilizado para preparar o picadão? O ancião e a garrucha enferrujada ou o boia-fria e a insignificante espingardinha de chumbo esquecida debaixo da cama?

O escopo do desarmamento deveria focalizar a excelência do resultado com mais eficácia e menos politicagem. Sempre é o cidadão do bem o evocado para a entrega de suas toscas e velhas armas. Então, o rolo compressor tritura os armamentos azinhavrados dos trabalhadores, rangendo o sucesso da campanha, enquanto os armamentos enfurnados pelos facínoras restam intocáveis, intensamente protegidos. Esse tipo de campanha faz surgir dois mundos distintos: do bem e do mal. Oportuno lembrar a "Máquina do Tempo" obra de ficção de H. G. Wells, onde dois mundos resistem: o mundo dos Elóis, seres contemplativos, sem qualquer espécie de reação e os sanguinários Morlocks, que viviam enfurnados debaixo da terra, de onde quase nunca saiam, a não ser para caçar os Elois dos quais se alimentavam. Logo, a ficção vira realidade: os cidadãos desarmados, se transformam em Elóis, cidadãos do bem, acuados e desprotegidos dentro de suas casas, embora cingidas por grades, alvo fácil para a bandidagem extremamente armada: os Morlocks.

Desarmem-se cidadãos brasileiros! O pai de família, o trabalhador, o operário, o pedreiro, o taxista, o comerciante, o agricultor. Entreguem suas armas, suas enxadas, seus facões e canivetes, trabucos antigos e espingardas, seus ancinhos e tesouras de podar. Entreguem educadores, suas canetas! Abandonem seus bisturis senhores médicos!

Apresentem suas armas, senhores policiais! Enfrentem o mundo do crime com flores e fitas de cetim para recepcionar e algemar com delicadeza os intocáveis quadrilheiros e seus AR15(s), que, certamente, não compartilham de tal campanha. Apropriado lembrar Rousseau: "Num Estado bem governado, há poucos castigos, não porque se haja concedido muitas graças, mas porque há poucos criminosos: a quantidade de crimes lhe assegura a impunidade quando o Estado se deteriora".


A autora, Valderez de Mello, é advogada, professora, pedagoga e psicopedagoga, autora do livro: "Lágrimas Brasileiras"

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