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Funcionários do Lar Escola pedem retorno de internos em passeata

Por Mariana Cerigatto | Com Redação
| Tempo de leitura: 5 min

"Nós queremos nossas crianças de volta". "Eles são uma família". "Tirar os internos do Lar é o mesmo que tirar você do seu próprio lar". "Precisamos do seu apoio". Essas foram algumas das frases anunciadas em coro e escritas em cartazes, que marcaram a passeata de funcionários do Lar Escola Rafael Maurício, realizada na manhã de ontem, em Bauru. O grupo, formado por ao menos 20 pessoas, percorreu emocionado as quadras do Calçadão da Batista de Carvalho com o intuito de sensibilizar os baurenses e mostrar a todos seu inconformismo e tristeza provocados pela transferência de 40 internos da entidade. Para os manifestantes, a mudança compulsória de endereço promovida anteontem é injusta e invasiva.

A expressão facial de cada um já dizia tudo, no entanto, também amarraram pano preto nos braços simbolizando luto. Enfermeiras, assistentes sociais e demais funcionários afirmam ter assumido o papel de mães e pais dos internos que, conforme o JC noticiou na edição de anteontem, foram transferidos e encaminhados a três casas vinculadas à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), uma delas localizada em Bauru e, as outras duas, em Dois Córregos.

A transferência é consequência da situação delicada pela qual passa a entidade, que desde o ano passado enfrenta sua pior crise financeira. A situação motivou a promotoria da Infância e Juventude a propor uma ação de dissolução da instituição. A partir da ação, o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, determinou que os internos mudassem de endereço.

O prazo para a total remoção dos assistidos termina hoje. Contudo, sete internos se negaram a sair do Lar Escola e foram temporariamente respeitados.

Mas esforços pela permanência da entidade continuam, garantem os funcionários. Eles dizem que vão lutar até o fim para reaver os internos transferidos. A manifestação que, em princípio, tinha como principal objetivo pedir ajuda para manter a entidade, ganhou uma outra e mais forte dimensão após a remoção dos assistidos do Lar Escola. "Nós fomos pegos de surpresa com transferência dos internos na sexta-feira. Ninguém nos avisou. Por isso, aproveitamos para mostrar, nesta passeata, a nossa indignação com essa decisão do juiz, a maneira com que eles foram retirados do Lar Escola Rafael Maurício e como queremos nossas crianças de volta. Elas são como filhos para nós", enfatizou a enfermeira da entidade, Paola Figueiredo, que também disponibilizou até um abaixo-assinado.

A transferência dos assistidos, conforme divulgado pelo JC, foi providenciada pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (Drads) e foi acompanhada pela diretora regional da pasta, Maria Moreno Perroni, oficiais de Justiça e Conselho Tutelar.

Inicialmente, tudo levava a crer que o processo seria tranquilo mas, por volta das 16h, quando o ônibus que levaria os internos às novas acomodações chegou, o tumulto se instalou. Sete internos que resistiram à transferência estão abalados, segundo os funcionários. "Eles estão em pânico e não querem sair de lá de jeito nenhum", comentou Paola.


Tristeza


A técnica de enfermagem Andréia Regina Silva Scarcella não se conteve e deixou cair lágrimas enquanto relatava a transferência dos assistidos. "Está sendo difícil aceitar. Tiraram uma parte da gente", lamentou. Josué Machado, que trabalha na área de manutenção da entidade, também mostrou sua tristeza com a situação da instituição. "Não podemos deixar que o Lar Escola Rafael Maurício acabe assim. A entidade tem uma história de mais de 50 anos. O poder público está dando as costas quando poderia ajudar a reerguer essa entidade tradicional da cidade", disse.

Nanci Vechi, que há 9 anos trabalha como técnica de enfermagem no Lar Escola, alega que os funcionários - que tiveram que enfrentar atraso de pagamentos por três meses - estão lutando pela volta dos internos por puro amor. "Nós nos engajamos nessa luta por puro amor, pois chegamos a ficar até sem pagamento durante uma época. É um absurdo a forma como os internos saíram de lá. As pessoas que os levaram pediam ?para? gente parar de chorar, pois estávamos atrapalhando o processo. Mas eles são como filhos. Agora não sabemos se eles estão bem, se estão se alimentando", disse.

O psicólogo Dorival Vieira, que apoia o Lar Escola Rafael Maurício, declarou sua indignação com a mudança repentina de moradia dos assistidos. "Há poucos dias, o prefeito Rodrigo Agostinho instituiu lei que cria o Conselho Municipal de Direitos Humanos, mas deixou essa transferência desumana acontecer", salientou.

De acordo com a técnica de enfermagem Cícera Cristina Lopes, há internos que viviam há mais de 20 anos na instituição e a mudança rompeu laços afetivos de forma brusca e despreparada.

O presidente do Lar Escola Rafael Maurício, Francisco Carlos Pereira da Silveira, assim como o diretor, Alexandre Pérpetuo, foram procurados pela reportagem para comentar a manifestação, mas preferiram não se pronunciar.

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Para Drads, internos estão bem acomodados


Segundo a diretora regional da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (Drads), Maria Moreno Perroni, com a transferência, os internos do Lar Escola Rafael Maurício serão melhor acomodados e poderão receber atendimento mais individualizado, o que irá interferir diretamente na qualidade de vida deles.

De acordo com ela, as casas foram alugadas e adaptadas pelo Estado especialmente para receber os internos do Lar. Ao todo, foram investidos R$ 80 mil somente para equipar os imóveis, sem contar os recursos para a contratação de equipe de funcionários e manutenção dos atendidos.

A nova diretoria do Rafael Maurício, que assumiu a administração há menos dois meses para tentar sanar a insolvência da unidade, adianta que a entidade não será extinta.

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