Esteja certa, V. Excia., que o motivo principal de nos últimos anos ter sido comprovado um sensível aumento no número de pessoas que se declaram negras ou afrodescendentes é consequência direta e quase imediata dos ótimos programas assistencias que, merecidamente, o governo brasileiro - principalmente no período dos dois governos Lula da Silva, apesar de que não só neles - tem oferecido ao nosso povo. Porque têm mais interesse que propriamente vontade própria de declarar-se o que efetivamente são, muitos descendentes de escravos, que nunca se importaram com essas condições, procuram, agora, os seus direitos e, em certos casos, mais as vantagens que atualmente decorrem dessas condições. Obviamente a miscigenação continua e continuará sempre, até em proporções maiores que as que vinham costumeiramente acontecendo no Brasil.
Isso tudo, senhora ministra, não implica que "negros têm de ser prioridade no Brasil sem Miséria", como V.Exia. declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo (pág.A/12, 13/5). Respeitosamente eu diria que os brasileiros mais necessitados, sem prevalecência de cor, condições físicas ou mentais, devem ter prioridades idênticas nas vantagens e oportunidades que aquele programa venha a oferecer. Urge que não se faça, no mínimo, distinção entre negros pobres e brancos miseráveis.
Eu diria mais ainda: bendito este país em que, com certeza, dentro de pouco tempo, devido ao convívio fácil, carinhoso e respeitoso entre os que compõem nosso povo, teremos uma população hegemônica não só na cor mas também, e principalmente, nas idéias, nos conceitos, na instrução e nas artes. Em nenhum outro país do planeta o cruzamento de cores acontece tão espontaneamente como nesta Terra de Santa Cruz. Há excessões?
Logicamente há. Mas por isso mesmo são...excessões. Declarações como a de V.Exia. nada constroem. Pelo contrário, somente criam animosidades e contradições. Procure entender, senhora ministra, que é a população branca que está amorenando e não a negra que está clareando. Ou vice-versa, se assim V.Exia. entender que deva ser.
Neste 13 de maio de 2011, 123.º aniversário da Lei Áurea, receba, respeitosamente, os meus cumprimentos.
João Guilherme Ortolan