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Ansiolítico faz legião de dependentes

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

"Já tentei parar, dormir sem tomar nada, mas passei a noite em claro. É difícil, porque vicia mesmo". O depoimento poderia ser de um alcoólatra ou de um usuário de drogas, mas não é. A substância que provoca a dependência da assistente social Aparecida Camalionti, 54 anos, atende pelo nome de clonazepam, medicamento contra a ansiedade que se tornou um campeão de vendas e preocupa especialistas pela maneira indiscriminada como vem sendo usado.

No País, o número de caixinhas comercializadas aumentou 36% em apenas quatro anos, saltando de 13,57 milhões para 18,45 milhões, de acordo com o IMS Health, instituto que audita a indústria farmacêutica. Entre as marcas disponíveis no mercado, o Rivotril responde por 77% das vendas, o que o torna o segundo remédio mais consumido no Brasil, atrás apenas do anticoncepcional Microvlar e à frente de qualquer analgésico, antiácido ou antigripal que as pessoas compram para ter guardado em casa.

De tarja preta, o calmante é ingerido por Aparecida Camalionti há 30 anos. A prescrição, segundo ela, é obtida junto a médicos que não necessariamente possuem especialização em psiquiatria. "Hoje, é meu endocrinologista quem receita. Teve uma época em que fiz psicoterapia, mas não ajudou muito. Sou alegre, trabalho, mas só consigo ficar bem com os remédios", conta ela, que também sofre de depressão e associa o uso de outros três medicamentos ao clonazepam.

Entre os motivos para explicar o fenômeno que tornou os brasileiros um dos maiores consumidores de ansiolíticos no mundo estão o hábito enraizado da automedicação, a precariedade do sistema público de saúde, a conivência de uma parcela dos médicos, a pressão da vida moderna e até uma certa dose de glamour dos transtornos psiquiátricos, até bem pouco tempo atrás vistos como "problemas de louco". O baixo custo ? de cerca de R$ 10,00, a caixa ? e o fato de ser considerado um remédio antigo e seguro, ainda que com poder de vício, também ajudam.

"Mas, para ser seguro, o paciente precisa ser sempre monitorado. O uso por tempo prolongado é evitado sempre que possível justamente para não causar dependência e também pelos riscos envolvidos. Quem tem um gene para a bipolaridade, por exemplo, poderá ter uma viagem maníaca se tomar o clonazepam por um longo período", explica o psiquiatra Evandro Luís Pampani Borgo.

Artimanhas

Segundo ele, assim como relataram outros especialistas consultados pela reportagem, não é raro o paciente, já viciado, fazer uso de algumas artimanhas para obter uma quantidade maior de medicamento. "Uns voltam ao consultório dias depois dizendo que perderam a receita, outros vão a vários médicos relatando o mesmo problema e conseguem a prescrição em todos eles. Se a história for muito convincente, não há o que fazer. O profissional tem de confiar no que este paciente está falando", pondera.

Como a receita para o clonazepam fica retida na farmácia, o objetivo é ter em mãos várias delas para ingerir uma dosagem maior do que a indicada pelos profissionais de saúde ou apenas permanecer um período mais longo sem precisar retornar ao consultório. "Já tive conhecimento de uma pessoa que tomava 16 miligramas de clonazepam por dia, o que é uma dose bastante alta e não recomendada. Geralmente, para crises episódicas de ansiedade, o normal é receitar 0,25 miligramas", comenta Borgo.

Na avaliação do médico, a busca desenfreada pela dopagem via ansiolítico está intimamente relacionada ao modo de vida frenético adotado nos dias atuais. Sem tempo suficiente para as atividades reflexivas ou de lazer, as pessoas encontram no clonazepam uma maneira artificial, imediatista e pouco recomendável de enfrentar os problemas cotidianos.

"Para elas, a medicação acaba sendo uma válvula de escape, assim como são o álcool e outras drogas. Hoje, as pessoas primam pela produtividade, pela competição e não conseguem relaxar. Neste sentido, o clonazepam acaba funcionando como um desligamento forçado", observa.

O uso prolongado e em altas dosagens do remédio, entretanto, além de ser capaz de mascarar doenças graves, pode desencadear quadros de amnésia, sonolência e até mesmo depressão, conforme explica a psiquiatra Florance Kerr-Corrêa, professora do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

"Por funcionar como um depressor do sistema nervoso central, o clonazepam tende a desencadear um quadro depressivo naqueles indivíduos que possuem alguma tendência a desenvolver a doença", afirma.

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