Preparar, apontar, fogo!
Perigo!
Assim que o tenente Gustavo Barbosa gritou esta palavra, vários tiros foram disparados. Certeiros, perfuraram o alvo, localizado alguns metros a frente, e se alojaram no barranco de terra, levantando um poeirão.
Novo grito: Perigo! Novamente, mais tiros, desta vez, com os soldados levemente agachados. Outro grito, mais tiros, novo posicionamento.
Foi realizando este tipo de exercício que os policiais militares da força tática, pelotões e escolta passaram toda a manhã e tarde da última terça-feira, dia 17. O objetivo era aprender a manusear com perfeição o novo equipamento adquirido pela Polícia Militar (PM), uma carabina Taurus .30, muito semelhante ao fuzil mas que não efetua rajadas e tem maior poderio de alcance.
No dia anterior, os soldados já haviam passado por treinamento teórico e, na última quarta-feira, ainda participariam de um treinamento em forma de circuito, com direito a verbalização e alvos escondidos.
"Na primeira etapa, cada policial vai efetuar 170 disparos, em diferentes posições. O treinamento é exaustivo, porém, necessário. Somente com muito treino é que eles estarão condicionados para utilizar o armamento de forma correta em situações de risco, em que a adrenalina atrapalha muito", explica o tenente.
O vento forte ajudou a compor o cenário de tensão e trouxe, além do frio, muita poeira e terra nos olhos. A arma, que pesa cerca de quatro quilos, no fim do dia, parecia pesar o dobro.
Entre uma cidade e outra
Eles não têm sábados, domingos e muito menos feriados. Tiram férias, é claro, mas nunca nos meses de janeiro, fevereiro, julho e dezembro, que coincidem com as férias escolares. Além disso, se revezam trabalhando vez de dia, vez de noite. Estes são os ossos do ofício que precisam ser digeridos por quem deseja se tornar um integrante da Polícia Militar Rodoviária (PMR).
Além disso, para se tornar um policial militar rodoviário é preciso, além de passar por todos os treinamentos de um policial militar, passar por um curso de especialização.
A missão destes policiais consiste em realizar abordagens; fiscalizar, reprimir e coibir infrações de trânsito; atendimento de ocorrências, além de garantir a segurança das estradas e socorrer acidentes.
E, a julgar pelo número de rodovias que eles são responsáveis ? a Bauru-Marília, a Bauru-Iacanga, a Bauru-Ipaussu, a Bauru-Jaú e a Marechal Rondon do trecho que vai da Avaí a Areiópolis ? e pelo número de feriados existentes no Estado, a rotina nem sempre é tranquila.
Segundo o soldado Douglas de Azevedo, a rodovia Bauru-Iacanga e a Marechal Rondon são as que mais carecem de monitoramento da PMR, a primeira por ser pista simples e a segunda por ter um grande trajeto urbano.
Na profissão, segundo Douglas e seus colegas o soldado Cícero Torres Boldarin e o sargento Roberto Bispo, o segredo é gostar muito do que faz.
"É um trabalho exaustivo e que exige bastante concentração. O primeiro acidente fatal a gente nunca esquece", afirma Cícero.
"Acidentes com criança também são terríveis. Quando a gente passa pelo local e lembra do acidente... A gente nunca vai se acostumar com isso", afirma o sargento.
Farda cor de rosa
Batom, cabelos bem arrumados, farda, coturnos e um revólver rente à cintura. Este é o look de trabalho das policiais militares femininas, que trocaram profissões como professora, cabeleireira e vendedora pelos riscos que a carreira militar oferece.
Entre as tarefas de rotina está o dever de monitorar o trânsito, atender ocorrências informadas pelo Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), realizar abordagens e revistas e fazer a segurança de eventos e a ronda escolar. Arriscado? Não para elas.
A soldado Luciana de Lourdes Carmiatti, por exemplo, decidiu entrar na carreira militar por influência de uma amiga. Em novembro, ela comemora 15 anos de profissão e diz não se arrepender.
"Adoro o que eu faço e me sinto plenamente capaz de exercer minha função. No começo a adaptação é um pouco complicada, mas, com o tempo, a gente pega o jeito e passa a se orgulhar da conquista", avalia.
Atualmente, ela realiza a ronda escolar em sete escolas da cidade e é exemplo para as meninas que estudam no local.
"Muitas vêm até mim e dizem que querem ser PM quando crescer. Me sinto muito bem sendo um exemplo para estas crianças e adolescentes", conta.
Cibele de Oliveira Granja Schucheman, colega de trabalho de Luciana, tem 25 anos de profissão, ocupa o cargo de sargento e atualmente trabalha a maior parte do tempo no setor administrativo da sede do 4º Batalhão da Polícia Militar do Interior.
Filha de uma professora e de um policial, a veia militar de Cibele falou mais alto, para o desespero de sua mãe. Quando ela se decidiu pela carreira militar, poucas mulheres se arriscavam neste universo e o preconceito era, em maior parte, da população.
"Tinha homem que se recusava a ser multado por uma policial feminina", lembra, rindo.
Mas lidar com o preconceito era a parte mais fácil do trabalho da sargento. Ela conta que, nestes anos de carreira, o caso que mais a chocou foi o degolamento de uma mulher que ocorreu próximo a uma escola onde ela fazia a ronda. Cibele foi a primeira a chegar no local e nunca mais esqueceu a cena. Mas ela sabe: são ossos do ofício.
Força e tática
Todos os dias, notícias sobre roubos, homicídios, latrocínios, tráfico de drogas, e trocas de tiros entra bandidos e policiais recheiam as páginas do jornal, viram tema de debate nas rádios e invadem os noticiários da televisão.
Para a maior parte da população, notícias sobre estes assuntos causam temor e apreensão. Para os policiais da Força Tática (FT), significam apenas que o dia foi repleto de trabalho.
É que enquanto milhares de pessoas trabalham em escritórios, atendendo o telefone e lidando com clientes mal humorados, os 70 policiais que integram a FT têm a missão de enfrentar situações de alto risco e preservar a segurança da cidade.
Para isso, utilizam, além de viaturas especiais com três policiais cada, o canil, a cavalaria e a Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam). Além disso, realizam treinamentos diários e estão habilitados para manusear armas de grande potência, como a calibre 12, por exemplo.
Mas somente um seleto grupo de policiais tem a chance de pertencer a FT. Isso porque, para integrá-la é preciso ter bom preparo físico, experiência operacional, desejo de aprimoramento contínuo e, além disso, se destacar. Se o policial reunir todas estas qualidades, os integrantes da FT se reúnem e discutem se o convite deve ou não ser feito. Somente com a aprovação unânime do grupo é que o policial recebe o convite e pode escolher entre aceitar ou não.
"É preciso muita disponibilidade, coragem e força de vontade. A Força Tática exige muito de seus policiais e eles precisam estar preparados para isso", explica o tenente Gustavo Cardoso Xavier.
Gustavo entrou na polícia há 13 anos, por influência da família de tradição militar. Atuou em São Paulo, Duartina, na força patrulha noturna, na Base Centro e na Força Tática. Com os anos, adquiriu experiência, auto-controle e aprendeu a lidar com as mais diversas situações. Porém afirma que ainda não se acostumou com as ocorrências que envolvem crianças.
Um dos casos que marcou em sua memória foi o do assassinato de Marilucia Mauad, ocorrido em setembro de 2008, que chocou a cidade. Gustavo escutou pelo rádio uma informação do Comando de Operações da Polícia Militar (Copom) que dava conta de uma discussão entre um casal em que a mulher estava caída no chão.
"Imaginei que fosse uma briga comum, entre marido e mulher, e que ela devia estar bêbada e, por isso, caiu no chão. Casos assim são muito comuns", lembra.
Porém, quando chegou no local do acidente, teve uma triste surpresa: constatou que a mulher havia sido assassinada pelo ex-marido que, na sequência, se suicidou.
"E o pior: tudo isso na frente do filho pequeno, de apenas 7 anos. Me lembro que o menino jogou a arma na rua aterrorizado", recorda, com tristeza.
Rodrigo Paulo Fileto, soldado as FT, concorda com o tenente e afirma que as ocorrências envolvendo crianças são as mais complicadas.
"Uma vez estávamos indo para um evento em Pirajuí e um carro capotou em nossa frente. Na hora escutamos o choro de uma criança. Foram momentos de grande tensão. O acesso ao carro estava dificílimo e tanto os policiais quanto a criança saíram muito machucados da operação", conta Rodrigo, que afirma que sempre que se lembra deste caso pensa no filho pequeno.
Mulher coragem
Patrícia Gonçalves Pereira tem 41 anos e até os 26 anos levava uma vida padrão, dividida entre o casamento, os filhos, a casa e o trabalho. Certo dia, por um desses mistérios do destino, seu marido sugeriu que ela prestasse concurso para a Polícia Militar (PM). Sem pensar muito, Patrícia aceitou a sugestão: prestou o concurso, foi aprovada e passou a trabalhar como policial de trânsito. Pouco tempo depois, foi transferida para a Base Sul, onde atendia ocorrências informadas pelo Comando da Polícia Militar (Copom). Ficou oito anos nesta função e, quando menos esperava, foi convidada a integrar a Força Tática (FT).
"Foi uma surpresa maravilhosa. Eu nem sonhava em integrar a Força Tática porque sabia que era muito difícil, afinal, é o objetivo de todo policial. Quando recebi o convite aceitei na hora. O que senti é inexplicável", conta.
A coragem e o bom desempenho de Patrícia como policial foram fundamentais para que a FT fizesse o convite. E ela não decepcionou. Determinada, a militar integra o grupo há três anos e participa de todas as ações à ela designadas, sem exceção.
"Quando entrei para o Tático estava ciente de que não teria privilégios porque sou mulher. E me sinto muito bem por isso. Não tem dessa. Sou tão capaz quanto os policiais masculinos. O segredo é se sentir igual", afirma.
Ambiental
Combater o desmatamento, a caça e as queimadas, cuidar de áreas de preservação permanentes e realizar trabalhos educativos de caráter ambiental são algumas das missões dos 34 policiais ambientais que compõe a Polícia Militar Ambiental (PMB) de Bauru.
A rotina, ao contrário do que muita gente pensa, não é nada tranquila. Além das atividades de educação em escolas e empresas e da fiscalização rotineira traçada por um itinerário, a PMA precisa atender às denúncias que não param de chegar.
O trabalho ganha proporções ainda maiores porque a PMA de Bauru não atende somente Bauru, mas também a outras 15 cidades da região.
"Casos de queimada, desmatamento, animais em casas, pesca e intervenções em áreas de preservação permanente são as ocorrências mais comuns", afirma a seção de comunicação social e educação ambiental.