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Nós fumos e vortemos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Mundialmente reconhecido, Paulo Freire (1921-1997) ensinava na sua Pedagogia do Oprimido que "a leitura do mundo precede a leitura da palavra". Foi considerado "traidor da Pátria", pela ditadura militar, porque desenvolveu um método de alfabetização contextualizada à realidade da vida do próprio aluno. O miserável sabe o significado da palavra "fome". Durante o exílio, lecionou em Harvard. Depois da sua volta ao País veio a Bauru para uma palestra. Contei, durante a conversa com o pensador, que, quando fui à escola para ser alfabetizado, só havia uma cartilha chamada "Caminho Suave". Havia lições como "A pata nada" e "Ivo viu a uva". No Nordeste, onde não havia água e muito menos pato, a criança não entendia o significado das frases decoradas da cartilha. No Ceará, ninguém se chamava Ivo. Severino, sim. Uva só surgiu na Bahia depois das culturas irrigadas nas ribeiras do São Francisco. "Nós vivemos no mundo e com o mundo", dizia ele. "O mundo que é trazido ao horizonte da nossa percepção é totalmente editado, não só pelos jornalistas, como também pelos autores dos textos didáticos. Portanto, um mundo irreal e de difícil compreensão". A lição do mestre me ocorre com essa falsa polêmica sobre o livro didático distribuído pelo MEC, que "defende" os chamados "erros de português". Li na Internet o capítulo do tal livro. Ensina a gramática normativa como qualquer outro compêndio que se proponha a "ensinar" português. O trecho que levantou a celeuma, contém a possibilidade de se considerar como certas algumas variedades linguísticas tidas como erradas pela gramática normativa. Está presente numa pequena observação que visa informar aos alunos que há diversos contextos em que uma variante da língua pode ser mais adequada que outra. Os estudantes podem ser "poliglotas" em sua própria língua, tendo capacidade de discernir entre qual modalidade da língua optar dentro de uma situação real.

É interessante lembrar que o português teve sua origem no chamado latim vulgar, aquele levado pelos guerreiros romanos incultos à Península Ibérica. As línguas evoluem e, a partir da evolução da variante menos prestigiada do latim, criou-se o que hoje reconhecemos como língua portuguesa. Assim como a sociedade, a língua é uma entidade viva e está em constante modificação. A língua tem que estar a serviço da sociedade, e não o contrário. A norma dos cultos, que hoje é considerada padrão, amanhã pode não ser mais. Na minha classe do pré, havia um baianinho recém-chegado que, chamado a soletrar o alfabeto na lousa, na hora do "f" dizia "fe". Todos riam, mas ele estava certo porque o que interessa é o som e não o nome da letra. Abóbora para o garoto era jerimum. É compreensível que alguém entenda "os livro..." já no plural, produzido pelo "os". O ensino anacrônico e extremamente normativista sobre a língua portuguesa, que vem sendo praticada ao longo dos anos no Brasil, afasta os alunos do estudo da língua quando contribui para criar o senso de que "português é difícil". Criamos o analfabeto funcional - aquele que lê, mas não interpreta. Aluno copista só copia no caderno o que vê no quadro - letras que para ele são desenhos sem significado. O copista só copia, não sabe que um "f" é um "fe"; que pernilongo é muriçoca.

O Samba do Arnesto, de Adoniram Barbosa, mostra que ele conhecia a língua e tinha perfeita consciência da variedade linguística utilizada na fala popular da sua época. Em sua Evocação do Recife, Manuel Bandeira nos brinda com esta canção: "A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/Vinha da boca do povo na língua errada do povo/Língua certa do povo/Porque ela é que fala gostoso o português do Brasil/Ao passo que nós/O que fazemos/É macaquear/A sintaxe lusíada (...)".

A autora do livro, a editora e o Ministério da Educação foram acusados de estimular o uso incorreto da língua portuguesa. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirmou que a obra transforma a "ortografia em pornografia gramatical". A procuradora da República Janice Ascari disse que a distribuição do livro nas escolas é "um crime contra os jovens". Espero que a professora Heloísa Helena, a autora, não tenha que se exilar como Paulo Freire. O ensino da norma culta da língua portuguesa nas escolas é, sem dúvida, o que deve ter maior relevância. Entretanto, não se podem ignorar as outras variantes que cada aluno traz para a sala de aula, sob pena de se criar estudantes inseguros quanto à sua própria capacidade linguística. É o que está claro no livro. Também vou nessa. BJJSS.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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