Mais um racha na Câmara Municipal de Bauru foi explicitado na sessão da tarde de ontem. Dessa vez, o motivo foi a revolta de vereadores da base governista contra a desistência da Mesa Diretora em levar a sede do Legislativo para o prédio da Estação Ferroviária, comprado em 2009 pelo município por pouco mais de R$ 6 milhões, sendo que R$ 3,5 milhões foram originados da devolução do orçamento anual da Câmara, que se mudaria para o imóvel após sua reforma.
Os situacionistas apontaram possível decisão arbitrária do presidente Roberval Sakai (PP) e criticaram o fato de tomarem ciência da decisão através da imprensa, por conta de reportagem exclusiva do Jornal da Cidade, na edição do último dia 21 de maio.
Carlão do Gás (PR) foi o primeiro a falar sobre o tema na tribuna dos vereadores e afirmou que a Câmara precisa ser transferida para garantir a o processo de revitalização da região central de Bauru. O discurso foi reforçado por outros parlamentares de sustentação do governo, como Natalino da Pousada (PV).
Já Renato Purini (PMDB) lembrou que 14 vereadores votaram a favor da transferência da sede da Câmara para a Estação Ferroviária e não disse não entender o porquê da mudança de posicionamentos dos vereadores. "Nas últimas semanas, tudo acontece e depois desacontece nessa Casa", observou, fazendo referências a outras recentes crises no Legislativo municipal, após Sakai ter assumido a presidência da Mesa.
Também da base governista, Paulo Eduardo de Souza (PSB) lembrou que foi voto vencido nas discussões acerca da compra do prédio da estação por se mostrar contrário à mudança de sede do Legislativo, mas acompanhou o voto de seu grupo e quer entender agora o que motivou a desistência. "Será que há algum interesse em especulação imobiliária naquela região?", questionou.
Fabiano Mariano (PDT) também demonstrou descontentamento em relação à decisão da Mesa Diretora. "Quando a gente toma um posicionamento, tem que mantê-lo", esbravejou. O vereador, junto a Renato Purini, rechaçou ainda a proposta de construção de um nova sede ou de um anexo ao atual prédio da Câmara, proposta defendida pelo presidente Sakai.
A discussão chegou também a Roque Ferreira (PT), que rebateu os argumentos de que, abrigando também as secretarias municipais de Saúde e Educação, a Estação Ferroviária não comportaria o Poder Legislativo de forma adequado. "O prédio é muito grande e não abrigava apenas a estação, mas sim a sede de três grandes empresas. Posso garantir que, com uma reforma simples e operacional, a Câmara poderia funcionar tranquilamente no local", afirmou.
Oposição elogia Sakai
Por outro lado, vereadores oposicionistas se disseram favoráveis à decisão da Mesa Diretora e do presidente Roberval Sakai. Marcelo Borges (PSDB) e Chiara Ranieri (DEM) foram os mais entusiasmados nos discursos. Os dois foram os únicos vereadores a votarem contra a compra do prédio da antiga estação pelo município.
O tucano afirmou que nunca aprovou a ideia de que Legislativo e Executivo ocupassem o mesmo espaço físico e argumentou que a falta de espaço adequado poderia gerar impasses, pois os vereadores precisam pensar em uma Câmara para o futuro. "Tenho certeza que o fato de a Câmara não ir para a estação não vai impedir o projeto de revitalização da região", pontuou Borges.
Chiara foi mais incisiva e lembrou que a sede do Legislativo já funciona na área central de Bauru, que nem por isso está revitalizada. "Na ocasião da compra do imóvel, deveríamos ter discutido mais amplamente qual seria a melhor destinação da estação para contribuir de fato com a revitalização da região, como a construção de espaços poliesportivos. Infelizmente, isso não aconteceu", afirmou.
A vereadora acredita também que as secretarias municipais devem ocupar o espaço adquirido pelo município para que a prefeitura deixe de pagar aluguel de diversos imóveis, onde atualmente essas estruturas funcionam, gerando economia de recursos para a administração.
Os parlamentares lembraram ainda que foi realizada, recentemente, uma consulta informal entre os vereadores para saber quantos deles eram favoráveis ou não à mudança da sede da Câmara para antiga estação. "Houve um empate com oito vereadores de cada lado. Nesse caso, o presidente e a Mesa Diretora, da qual eu ainda não fazia parte, legitimamente, tomaram a decisão", destacou.
Presidência vai oficiar a prefeitura
Apesar das pressões da base governista por conta da desistência da transferência da Câmara para a estação, o presidente Roberval Sakai manteve seu posicionamento e afirmou que vai oficiar o Executivo sobre a decisão da Mesa Diretora até o final dessa semana. "Tomamos a decisão por conta da demora da prefeitura para definições sobre o projeto. Fizemos uma visita ao prédio da estação em janeiro, em março uma comissão veio analisar a nossa sede para avaliar as nossas necessidades, mas não obtivemos nenhum retorno. A Casa necessita de uma ampliação e, dessa forma, a Mesa tomou sua decisão", explicou.
Sakai declara-se favorável à construção de um anexo ao prédio atual da Câmara, na área onde funciona atualmente o estacionamento para vereadores e funcionários. Como parlamentares já demonstraram resistência à proposta de gastos com ampliações ou construção de uma nova sede, o presidente do Legislativo afirmou que vai conversar com todos para chegar a um consenso.
Por repetidas vezes, Roberval Sakai fez questão de destacar que o posicionamento tomado pela permanência da Câmara no prédio atual foi técnico e não político.