Durante anos estudei a dinâmica de ecos-sistemas e acho imprudente pedir considerações sobre o Código Florestal a uma pessoa sem a capacidade para arguir sobre o tema. Não sei se o escritor do artigo publicado ontem neste espaço ("Novo Código Florestal, a demagogia dos ambientalistas") tem conhecimento sobre as sanções do novo Código Florestal e suas implicações. Primeiramente, a forma de demarcar APP baseia-se em um critério errôneo considerando apenas o período da seca de rios e diminuindo a área de APP. Essa simples mudança pode comprometer o leito da maior parte dos rios brasileiros. Pedir a anistia aos desmatadores é inconstitucional, uma vez que um ambiente saudável é um direito de todos. Dar perdão absoluto aos que desmataram livremente durante anos é privar-nos de nosso direito. Pagar para que os produtores mantenham essa reserva é o mesmo que pagar para que indústrias mantenham os filtros em suas chaminés, e mais uma vez é algo inconcebível. Falar sobre ambientalista é fácil, criticá-los ainda mais. Entender os processos que serão gerados pelos efeitos desse código é nosso dever e é nosso dever alertar a população sobre os possíveis impactos dessa lei. Não sei se o grande defensor do código tem ciência de que as serras, topos de morros e áreas de altitude superior a 1.800m deixar de ser APP e podem ser desmatadas. Teríamos novos deslizamentos? Aliás, qual a maior fonte de energia do Brasil? Hidrelétrica, certo? Com a redução das áreas de APP, os rios não sofreriam assoreamento? Sem falar da perda de biodiversidade que teremos. A recomposição é o mínimo a fazer. Mas num país onde tudo dá-se um jeitinho e onde os interesses políticos podem "mascarar" certas verdades, falar em proteção ambiental é complicado. Aguardemos os tristes capítulos desse código da destruição florestal.
A autora, Mariana Ninno Rissi, é bióloga, e mestre em botânica